Papel no Alforge VII

A começar a semana, recebi a seguinte mensagem do Andrea:

Hey, have a look here (in Italian).

She’s one of my heroes, and a great scientist and outspoken progressive citizen, and she’s going to present her autobiographical book “La mia vita in bicicletta” (My life on a bicycle) this week…

Keep an eye out – if anything in English about her and her book pops up, it should be good material for a 1PNP post!

Já sabíamos que de Itália, quando chegam coisas com bicicletas, o resultado costuma ser bom, por isso foi com expectativa que, no dia seguinte, abri uma nova mensagem:

After sending you that brief link to a potentially obscure newspaper article yesterday, i digged a bit further and out came some good stuff for a serious “momento pernoléu da semana” blog post, if you like it.

Not only Margherita Hack is a fine scientist with a real passion to make physics and astronomy accessible through her many books devoted to public understanding of science, but she is also a very energetic, outspoken and witty woman who had a very interesting life.

As an outspoken critic of religious beliefs aspiring to influence public life, atheist, animal lover, vegetarian, champion of gay rights, co-founder of the astronomy magazine “L’astronomia” (which was a constant presence in my parents’ home in my childhood and through which i started loving physics and the night sky), she is definitely one of my top heroes.

And she has always had a very special relationship with cycling.

So much so that last year she appeared in a music video by the Italian band Têtes de bois, for their song Alfonsina e la bici, playing the character of Alfonsina.

Who was this Alfonsina? Alfonsina Strada (nomen omen: strada means “road” in Italian), born in 1891, was a woman so stubbornly passionate about cycling that ended up taking part, first woman ever, in the 1924 Giro d’Italia, which she heroically run through the end through incredible adventures (on a day of extremely adverse weather she broke her handlebars and arrived at the finish line with half handlebar replaced with a broomstick). Towards the end of the music video, we can hear Margherita’s voice talking about memorable long bike trips she loved.

So here we have two extremely energetic Italian women cyclists, and -i think Margherita Hack deserves the be a poster girl for a momento pernoléu da semana: I’m generally not too impressed by images of young-chicks-on-a-bike (which i suppose would like to suggest a positive association between cycling and being fit and pretty), as it’s relatively easy, after all, to be fit and pretty when young, but Margherita is definitely one of the most beautiful 90-years old women I know of, and although not all of this could be linked to her cycling throughout her life, i’m sure that cycling had a role there, and what a better proof could we have that leading an healthy and active life is a great way to keep oneself in top shape until old age?

One last pearl linked to this – Margherita Hack’s latest book (La mia vita in bicicletta – My life on a bicycle), an autobiography centered around her love for cycling, is published by Ediciclo (ediciclo.it), an Italian publisher focusing on bicycles, cycling, and outdoors life.

Enough for Italian cycling pride?

Papel no Alforge VI

Nasceu hoje. A revista B é coisa dedicada a quem gosta de andar de bicicleta, mesmo que não rape as pernas e o seu kit de eleição seja uma mola da roupa para segurar a bainha das calças.

A B em segurança.

Aqui está ela à porta de casa do Sr. Moura, na caixa das couves da bina da minha senhora, ao lado do novo trécotréco de segurança que chegou no mesmo dia. A minha Tai não é de carbono e foi feita para durar uma vida. Agora tenho quase a certeza que essa será passada ao meu lado.

E pronto, ide comprar a B, que está carregadinha de bom material, fotografias do melhor que há e um papel que nem parece papel de tão bom que é.

Equipa editorial de luxo, com bons amigos de dentro e de fora da rede.

 _______________________

PS: reparei agora que na página 49 vem uma singela referência à Adega do Ciclista. Que bonito.

Papel no Alforge V

Já estava há uns meses em estágio em casa da minha irmã, casada com um personagem bem posicionado para arranjar estas coisas a preço de ciclista.

O “The Endless City” finalmente chegou às minhas mãos, para mal da minha querida mãezinha que teve que carregar este catrapaço na bagagem de mão e também da minha histórica sifose, que teve que arcar com o bicho dentro da mochila até chegar à cosiness do meu apartamento na capital do tédio.

São centenas de páginas espectacularmente ilustradas num calhamaço que, não despretenciosamente, se assume logo à partida como o “manual dos urbanistas do futuro”.

The late twentieth century was the age of economic globalization. The first part of the twenty-first century will be the age of the city, the urban age. For the first time in the history of humanity, more than half of the earth’s population is living in urban areas. Questions regarding the shape, size, density and distribution of the city have become increasingly complex and politicized, and the impact of the built environment on social inclusion and quality of life are at the forefront of discussions about urban planning.

These are the issues that have led to the creation of The Urban Age Project, a network of organizations, individuals and research projects that focus on sustainable development in the world’s cities. The project gathered a group of internationally renowned professionals for six conferences held in six international cities – New York, Shanghai, London, Mexico City, Johannesburg and Berlin – to discuss the future of the contemporary urban environment. The conferences offered a platform from which to discuss how architects, urbanists and politicians should plan infrastructure and development without constraining growth and promote a better social and economic life.

This book is the result of the discussions and extensive research produced for these conferences. The research is clearly presented alongside informative texts written by some of the greatest professionals in the field of architecture, urbanism, economics and politics, including Richard Sennett, Saskia Sassens, Rem Koolhaas, Deyan Sudjic and Ricky Burdett, and is richly illustrated with photographs, maps, diagrams and statistics. The book is produced in close collaboration with the London School of Economics to ensure that all the information presented is accurate and reliable, and the accessible design ensures that this book will become the essential reference tool for everyone involved in urban planning and development.

THE ENDLESS CITY (Phaidon Press Inc. (March 20, 2008) is authoritatively edited by Ricky Burdett and Deyan Sudjic in collaboration with the London School of Economics and the Urban Age Project, an expanding international organization seeking a new urban agenda for global cities.

Assim que terminar este, virá o “Living in the Endless City“, publicado já em 2011.

Papel no Alforge IV

Ontem foi o aniversário da minha mãe, mas eu também acabei por sair de lá com um presente.  Já andava a namorar esta coisa maravilhosa há muito e acabei por, inesperadamente, a receber do freguês número um da Adega do Ciclista.

Um mimo em forma de dezenas de binas e centenas de pormenores muito bem ilustrados. À conta dele, acabei por queimar pestanas, obcecadamente, à procura das inovações mais influentes ao longo das décadas tendo, no final, constatado com satisfação que as coisas pouco têm mudado.

Papel no Alforge III

Chegou ontem.

O Raoul Taburin é um tipo alegre, mas às vezes fica triste. É um dos homens mais respeitados numa aldeia onde o seu nome é sinónimo de bicicleta. Até foi ele quem preparou a bina de um vencedor de etapa do Tour.

Os outros dois personagens com o direito a ter coisas baptizadas com o seu nome são o charcuteiro e o oculista. Mas, ao contrário do charcuteiro, que se alambuza diariamente com os seus presuntos e do oculista, que não passa sem os seus óculos, o Raoul nunca conseguiu aprender a andar de Taburin.

Já tinha falado do livro aqui e não resisti a mandar vir.

Papel no alforge II

Ontem tinha isto à espera no correio.

Os “Diários da Bicicleta” são leitura conhecida e sobre eles já muito se tem falado. Estava para comprar o livro há vários meses, mas como uma grande quantidade  das supostas partes mais interessantes já foi sendo divulgada por essa blogosfera fora, fui sempre adiando.

O David Byrne, como ele próprio já vem afirmando há muitos anos, tem facilidade em dizer o que lhe vai pela cabeça. Ciclista urbano por excelência, faz-se acompanhar por uma desdobrável por onde quer que o seu agente o mande ir dar música. Deambulando pela cidade de bicicleta e mantendo um diário desde sempre, a matéria para livro era óbvia.

O DDB (acrónimos I love you, habituem-se) é sobre o que o DB (tumba) foi vendo nos seus passeios urbanos, reflexões sobre os locais e uma lição teórica de urbanismo –  a bicicleta é tema de capa e o leitmotif do livro apenas no sentido em que proporcionou as passeatas e os escrevinhanços. Prometo escrevinhar eu também por aqui quando terminar a leitura.

Questões:

Porquê em Inglês? Bem, a escolha não se deve a qualquer snobismo linguístico, mas pelo facto de esta opção ser substancialmente mais barata.

Porquê? Porque os livros na civilização (não confundir com Civilização, a editora) são muito mais acessíveis do que por cá.

Porquê? A multiplicidade de formatos é grande, havendo opções para todos os gostos e os saldos e promoções são muito bons e frequentes – ainda no outro dia falei duma pechincha. Por exemplo, este mesmo “Bicycle Diaries” custa na Amazon inglesa 5 libras (7 euros e picos) . Na Wook portuguesa o Diários da Bicicleta custa 17,22 euros. Em ambos os casos acrescem os portes de envio, mas se por um lado, mandar vir papel de inglaterra fica mais caro, por outro, podemos sempre optar por comprar “new and used” e obter um desconto razoável (às vezes o livro em si fica a um custo perto do zero).

Porquê? Isto deve-se, dizem os nossos entendidos, ao menor vigor do nosso mercado livreiro e à menor massa crítica existente (isto só para meter termos abicicletados no post), mas eu sou levado a pensar noutra razão: Os livros na civilização (mais uma vez, não confundir com Civilização) são feitos para serem lidos,  por isso há formatos pequenos, com encadernações foleiras dobráveis, enquanto por cá os livros são objectos decorativos, que nem sequer pela capa valem porque a única coisa que é vista é a lombada.

É por isso que o exemplar na língua de Camilo que tenho namorado na Bertrand de Júlio Dinis* e que vale quase 20 euros é muito mais bonito, brilhante e com quase o dobro do peso, mas muito menos prático para levar no Alforge ou na carteira (o mesmo que mala de senhora – estamos no Porto).

Nota lateral: vivo num êxtase desde que tenho o meu alforge, talvez potenciado por qualquer recalcamento sinistro, que se deve a andar com algo parecido com uma mala de senhora. Trago tudo atrás de mim, desde cleanex húmidos para pôr um ar mais apresentado antes de entrar no escritório, já que a evangelização ciclística implica andar sempre impecável (momento cycle chic), uma máquina fotográfica não muito compacta, uma capa para a chuva, livros vários (mais um momento pretensioso) ou um par de sapatos de ir ao ________ , caso a agenda do dia o exija. Tudo isto resulta numa secretária mais arrumada, nos bolsos mais leves e na segurança das superfícies sensíveis (iPod) relativamente aos objectos pontiagudos (chave de casa).

At last, recomendo esta entrevista do DB (pimba) no ipsilon, em que entre outras coisas se fala de mitos e mentalidades.

________________________

* já agora, tiro o chapéu à Bertrand, que em contraciclo decidiu fechar as lojas nos Centros Comerciais Brasília e Bom Sucesso e abrir esta loja de rua em Júlio Dinis.

Papel no alforge

Encontrei numa loja de livros usados de Stoke Newington (Londres) esta preciosidade, que custou menos de 4 libras e estava certamente tão deslocada como um ciclista no Porto, porque se tratava de um livro rigorosamente novo.

“It’s all about the bike”, trocadilho com “It’s not about the bike” do Lance Armstrong, relata a demanda do fotógrafo e jornalista Robert Penn pela bicicleta perfeita.

Robert Penn, personagem principal de aventuras diversas em duas rodas por todo o Mundo e alérgico a veículos a motor, decidiu, ao fim de uma vida ao pedal, cometer a extravagância de gastar 3.500 Libras numa bicicleta “bespoke”, ou seja o preço de um carro usado foleiro.

O livro conta a história da bicicleta através dos seus componentes, à medida em que Rob Penn vai relatando as suas deslocações na Europa e nos Estados Unidos para assistir (sempre que permitido!) ao fabrico de cada peça do bicho.

Desde a escolha de um quadro em aço feito para durar uma vida, manualmente e à medida na oficina do Norte de Inglaterra de Brian Rourke, aos segredos dos “headset” de Chris King em Portland (uma peça de joalharia), aos componentes Cinelli e Campagnolo (Itália) e ao pouco desportivo selim Brooks (igual há 50 anos e com um aspecto vitoriano com mais 50) o livro leva-nos de volta aos tempos em que as biclas eram o principal meio de transporte e também a aqueles em que era um mero brinquedo ou material desportivo, fazendo relatos mais ou menos épicos dos pioneiros do pedal e dos campeões/galãs de meados do século passado.

O resultado é a coisa old-school e absolutamente brilhante que podem ver na capa, apesar da pavorosa escolha das cores, o momento mais complicado do processo segundo o autor.

O livro deu origem a um documentário transmitido pela BBC4 cuja “traila” podem ver aqui:

Podem ver mais coisas sobre o livro e o autor no sítio do Rob Penn