Motivar as Massas CXLV

Há décadas atrás, ainda a Internet não tinha chegado a Aldoar, o Velho Lau começou este blogue. Quer dizer, não foi assim há tanto tempo, mas parece.

A ideia, era ter um sítio que respondesse por si à pergunta que as pessoas me faziam permanentemente:

Porque carga de água andas de bicicleta na cidade?

Hoje em dia deixaram de me fazer essa pergunta… assumem logo que foi um plano maquiavélico para vender bicicletas e prontos.

Bem, para além de todas as asneiras mais ou menos inocentes, mais ou menos lamechentas, que fui arrotando aqui no blogue, há uma que responde mesmo muito bem a essa pergunta. Mesmo. Muito. Bem (vi isto de dizer a frase entrecortada em pontos entrecortantes em qualquer lado e gostei): é esta e é das primeiras.

Basicamente, podia ter ficado por aí, já que estava tudo dito, mas ainda bem que não o fiz, porque entre outras coisas importantes, a minha vida social tinha sofrido com isso. É que hoje, noventa por cento das vezes que saio de casa é para ir ter com pessoal das biclas.

Este discurso não vem a propósito de um eventual fechar de tasco, apesar de isto já não ter o vigor do antigamente, mas para apresentar esta coisa bonita aqui em baixo, que, de uma forma simpática, podia servir de ilustração ao postal referido ali em cima. É que ao andar de bicicleta, sou a cidade.

biclas1

Bicicletas: “Somos pessoas em contato direto com a cidade”

Assim como quando caminhamos, ao pedalar estamos em contato direto com a cidade, somos parte dela, nos relacionamos com seus outros habitantes, seja através de olhares, linguagem corporal ou mesmo conversas que acontecem no espaço público. Não há interfaces nem elementos que nos limitem; estar livre, sem barreiras metálicas, é enriquecedor.

(…)

Isto é o que o artista Zhao Huasen procura expressar em sua obra “Flutuante”, em que remove digitalmente as bicicletas de fotografias em que aparecem cidadãos pedalando. Há, por um lado, um toque humorístico, ao vermos as elegantes posturas dos corpos ao pedalar, mas também mostra este contato direto com o território urbano, a presença clara e direta das pessoas na cidade. Perceptíveis apenas através das sombras que projetam, as bicicletas são invisíveis, fazendo desta obra um tributo aos ciclistas urbanos.

No ponto.

O texto pode ser lido aqui, onde estão o resto das imagens. A sugestão veio do David Afonso.

Motivar as Massas CXXXIX

kinfolk

The bike is a stroke of genius. On that day in the 19th century when Michaux gave it a chain and pedals, it had pratically attained its final form. We refine the materials, we work away at the details, but the basics of the machine are the same.

(…)

In 40 years of riding, I’ve seen steel replaced by aluminium which screamed when you stood on the pedals, aluminium replaced by carbon, carbon by titanium, and titanium by steel, and so on and so on and so on…

The fork straightened up to the point of becoming completely vertical, only to bend again. The wheelbase shortened and then it lenghtned a bit.

Distinguishing real progress from fashions is easy.

These are details, costly details, certainly, but they’re basically unimportant.

(…)

The bike is in itself a form of doping, which complicates things.  It is the tool of natural speed; it’s the shortest route towards the doubling of yourself. Twice as fast, two times less tired, twice as much wind on your face.

We can justifiably always want more.

Paul Fournel, Vélo.

Também publicado aqui.

Motivar as Massas CXXXII

Ainda não tinha falado aqui da Cristina da papelaria, apesar dela já ter estrelado no outro sítio onde costumo deixar postas de pescada.

A compra desta bicicleta teve vários propósitos, entre os quais as deslocações para o trabalho e a entrega de jornais em Matosinhos, que vou acompanhar para que fique devidamente registada.

Entretanto, a bicicleta passa os dias em frente à papelaria e vai sendo utilizada para propósitos vários. Ontem foi até à Baixa do Porto para tratar de assuntos que as papelarias têm para tratar. Hoje foi às compras aqui na Quadra Marítima com a segunda geração.

É para isto que se fazem bicicletas de cidade: para carregar coisas de forma confortável e permitir uma vivência fácil no centro das cidades.

Motivar as Massas CXXXI

Fotografia da Alice.

‘Ordinary things wear lovely wings’, wrote the Irish poet Patrick Kavanagh. I’d like to think he had a bicycle in mind when these words came to him. Certainly, Kavanagh rode bicycles. He grew up in Ireland in the early part of the 20th century, when the bicycle was a fundamental tool of rural life, a life Kavanagh keenly and often beautifully observed in his poems.

Then, the vast majority of bicycles were sturdy, black, steel-frame roadsters with luggage racks and leather saddles, made by the likes of Raleigh, Rudge-Whitworth and Humber. They were utilitarian machines. They were built to last. They cost ten pounds.

Advances in technology mean that you can now spend £10,000 on a featherweight bicycle made from futuristic materials with electronic gears. Yet for most of us the bicycle remains an ‘ordinary thing’, something we use daily to go about on mundane business.

Because it has ‘lovely wings’, though, the bicycle still plays a unique part in our experience and holds a place in our hearts, as the pages of this magazine affirm.

Rob Penn, na Bone Shaker #9.

Luísa e o cão

Ia aqui o Velho Lau muito calmamente ao final da tarde a caminho de um promissor jantar em família, quando passou a toda a velocidade uma coisa pouco vulgar: uma rapariga com um cão dentro de uma daquelas caixas de fruta amarrada à bicla. O bicho não era daqueles a pilhas e tinha um tamanho já respeitável.

Como tinha a máquina comigo, instintivamente acelerei a bicicleta e fui atrás dela. Quando a apanhei, umas dezenas de metros mais à frente, logo a reconheci.

Alguns de vocês lembram-se da Luísa. Não vai há muito tempo, que a entrevistei para o projectinho com o pessoal do Primavera Sound, onde ela falou da facilidade em andar de bicicleta na Querida Imbicta e do seu dia-a-dia a pedal.

O cão, de seu nome Gaspar, tinha ido esticar as pernas com a dona. No regresso, já cansado, pediu, como costume, para ir para a caixa. O Gaspar foi motivo para mais uma conversa à volta das bicicletas e houve uma frase que ficou e que é mais ou menos a seguinte (se não for, a Luísa pode sempre corrigir):

Os cães são como as pessoas, vão-se adaptando às condições da vida.

Basicamente, se para ser transportado tem que ir na bicicleta, vai-se habituar a fazê-lo com naturalidade. Mais esperto que alguns humanos, não há dúvidas.

Motivar as Massas CXXVIII

Tenho transportado na minha single speed, várias vezes por semana, pessoas de pesos e idades diferentes, malas, mochilas e compras.

Às vezes transporto mais do que dois destes artigos de cada vez. Às vezes tenho que distribuir os artigos pelo porta-couves e pelo tubo da frente (cross-bar, em americano). Às vezes está a chover. Muitas vezes faço-o na Baixa do Porto.

Não tenho cenas, nem complicações. Apenas penso que enquanto a bicicleta aguentar, quase tudo é possível.

Num dos testemunhos mais fixes que recolhi no Optimus Primavera Sound (começarão a ser publicados aqui num dos próximos dias), a Luísa, rapariga com quem me tenho cruzado nas ruas do Porto, diz-nos tão simplesmente que, no Porto, é só mitos.

A ilustração lá em cima explica bem aquilo que sinto quando pedalo pela cidade sem merdiosquices. A bicicleta é das máquinas mais fortes e fantásticas que foram criadas pelo Homem. Enquanto tiver pernas para pedalar…

 Ilustração da Inés Sanchéz, gamada ao pessoal da Lucky Basterds.

Motivar as Massas CXXIV

Está a ser um fim-de-semana em grande no que respeita a divulgação das coisas em que ando metido, com a TimeOut Porto a dedicar seis páginas inteirinhas da edição de Abril ao ciclismo urbano na querida Imbicta. O JN, fez o mesmo, reservando duas páginas para o tema.

Na TimeOut, a par de coisas como a Cicloficina ou a Massa Crítica, fala-se de aqui o 1PNP e do nosso projecto dos mapas, da Velo Culture e do Velocipedista, com palavras simpáticas sobre aqui o Velho Lau à mistura.

No JN, a Velo Culture tem grande destaque, com chamada de capa, num artigo a encher duas páginas da edição de Sábado (31 de Março), logo a seguir à necrologia.

Uma pequena nota lateral: Nuno Costa Gomes é o nome pelo qual agora é conhecido o incrível infográfico Nuno Gomes Lopes, que está a artilhar os mapas do 1PNP.

Motivar as Massas CXIX

Não tem sido fácil separar as águas, apesar da minha resolução de o único espaço da Velo Culture no 1PNP ser aquele cantinho ali à direita reservado à publicidade.

Não tem sido fácil, porque o projecto passou a ser grande parte da minha vida e também porque é um negócio de activismo, que toca muitas vezes o que andei por aqui a fazer desde o Outono de 2010.

Felizmente, tenho tido muita atenção mediática com a loja e, curiosamente ou não, passamos de uma fase do género “uau, que loja diferente”, para outra em que as pessoas vêm de novo ter comigo e com os meus sócios para ouvirem o que pensamos sobre a mobilidade em bicicleta, ou outras coisas mais úteis e ciclotóteis que uma notícia sobre a abertura de uma loja.

É por isso que, quebrando a promessa feita, trago para aqui duas coisas:

1. O link para uma reportagem no Canal Superior sobre mobilidade em bicicleta.

Basicamente, o resultado está muito longe (e muito melhor) do que o esperado. A entrevista foi feita em ambiente demasiado relaxado e quem me conhece, sabe que não posso dar entrevistas em ambientes demasiado relaxados. Foi de certeza um trabalho de edição épico para cortar todas as piadinhas e as tangas que fomos dando uns aos outros.

No final, somos os tipos que andam de bicicleta e que entram num diálogo ou discussão com o professor universitário que não anda de bicicleta e diz que o Porto tem “muitas pendentes”.

PEDALAR É O QUE ESTÁ A DAR

Portugal começa, aos poucos, a render-se ao charme das bicicletas como meio de transporte urbano. Com o aumento do preço dos transportes, parece haver cada vez mais motivos para começar a dar ao pedal no dia a dia. Nas Universidades, nem sempre é comum ver os alunos sobre duas rodas, mas a tendência é haver cada vez mais bicicletas estacionadas nos campi.

Podem ver aqui.

2. A transcrição da entrevista no Editorial

Se calhar o “media” onde aparecemos menos conhecido dos leitores do 1PNP, mas para mim um dos mais importantes. O Editorial é o espaço do Álvaro, que é um dos rapazinhos com melhor gosto que tenho conhecido por essa internet fora. Como bom vaidoso que sou, gosto de aparecer no meio de tanto coisa fixe. Fica a parte da entrevista cuja publicação aqui na Adega não pode ser considerada “publicidade”:

O que dirias para convencer alguém a trocar o carro pela bicicleta?

Digo para experimentarem uma semana, trocando parte dos trajectos de carro pela bicicleta. Nem que seja ir à mercearia ou tomar café. Se a pessoa não estiver disposta a experimentar em percursos pequenos, não vale a pena insistir. Um dia quando repararem que muita a gente o faz, mudam de ideias. De qualquer forma, através do meu blogue, tenho conseguido converter umas quantas pessoas.

Qual foi a coisa mais estranha que fizeste com uma bicicleta?

Já tive algumas aventuras recentes na bicicleta, como esta aqui. O mais estranho acho que foi carregar sacos de compras cheios presos no cinto das calças e um garrafão de água de 5L no top tube da minha bicicleta, que é de corrida e não tem porta-cargas. Não sei muito bem como o consegui, mas consegui.

O que deverão as cidades portuguesas fazer para se tornarem mais amigas das bicicletas?

Mais estacionamento e menos paralelo. Algumas bike-lanes em zonas mais pesadas e uma análise aos sentidos de trânsito também ajudavam. O Porto (e Matosinhos) seria muito mais ciclável se se invertessem alguns sentidos de trânsito para tornar os percursos mais adaptados (evitando subidas acentuadas, por exemplo). O resto é estética. Os carros vão-se habituando à nossa presença.

Quais os teus locais favoritos no Porto?

A Baixa, claro, especialmente a sua zona mais Oriental, perto da Av. Rodrigues de Freitas. Gosto da mistura social, das ilhas e das pessoas novas que gostam de lá viver. O desenho urbano, quase falhado, é fantástico, com as grandes avenidas e alamedas arborizadas.

À noite, se não andar a saltar de bar em bar como sempre, vou ao Plano B.
O Mercado de Matosinhos é um local de eleição para compras, claro e o Museu Soares dos Reis, além de ser de visita obrigatória, é um sítio maravilhoso para almoçar ao fim-de-semana. Adoro o meu bairro!

Motivar as Massas CXVIII

No sítio onde agora trabalho, passam muitas bicicletas e muitos ciclistas daqueles que não andam a treinar para a Volta. A malta vai-se habituando à sua presença e até perde a pica para escrever sobre eles, dada a quantidade cada vez maior de gente que vemos pela rua.

Alguns dos ciclistas já conhecemos pela silhueta, quando passam lá em cima na Ponte Móvel. Outros reconhecemos pelos sons que fazem, como a Daniela ou o Nuno, que nos saúdam com um vigoroso “tlimtlim” das suas campainhas enquanto acenam cá para baixo, ou o senhor que todos os dias ao final da tarde nos brinda com um ‘nhécnhéc’ irritante vindo do eixo pedaleiro e que se ouve dentro da loja.

Relativamente a esse último, o Sérgio já disse que qualquer dia lhe faz uma espera e improvisa uma Cicloficina no meio da ponte. Hoje estivemos quase a fazer isso mesmo, para conhecer a pequerrucha loira que passou duas vezes, uma em cada sentido, com a bicicleta pela mão.

Alguns dos ciclistas de Matosinhos conseguem deixar-me com um sorriso nos lábios durante uma boa parte do dia (a pequerrucha é um deles). É o caso do pessoal dos navios, normalmente de uma simpatia contagiante e que costuma visitar o Mercado para se abastecer. O da fotografia lá em cima,  pediu uma mãozinha à nossa vizinha, enquanto o amigo fazia compras numa das lojas. Levou o primeiro prémio “Motivar as Massas” da Adega do Ciclista.  Comentários para quê?

Motivar as Massas CXVI

This teaser is featuring Hugo Rocha, a fixed gear rider from Porto, Portugal. Covered with cobblestones and hills, Porto is definitly not the place to ride a bike without brakes, still Hugo is commuting with his bike every day.

The final project “The use of Space” is going to be architecture Master Thesis – about how to use urban space, with bikes, skateboards or just simple with your body.

Motivar as Massas CXV

Na Gronelândia. Posso jurar que o tipo vai a subir.

E finalmente o Velho Lau saiu do armário e escolheu a bicicleta como meio exclusivo de locomoção de Segunda a Sexta.

Já o era antes, menos quando chovia a pactotes (tinha que ser mesmo mesmo a pacotes), alturas em que ia sentir o povo para o 501 Sá da Bandeira, ou Matosinhos Praia, dependendo do sentido da viagem.

Agora, um casaco com capuz, um gorro de lã e uma muda de calças e peúgas na mochila resolvem o problema. Este mês, especialmente chuvoso, já apanhei diversas molhas, que compensaram altamente com tempo passado a fazer coisas que não têm nada a ver com transportar-me de um lado para o outro.

Para todos os efeitos, de bicicleta demoro sempre muito menos do que recorrendo a qualquer outro meio de transporte, especialmente quando chove, por isso o tempinho que se perde no WC a trocar de calças e peúgas não incomoda nada.

Claro que há soluções que ajudam, como os guarda-lamas, as rain-mates ou até os ponchos maléficos (mas muito eficazes), mas eu jurei não gastar mais do que cinco euros por mês com a bina e por isso, só lá para o Inverno de 2016 é que estarei equipado à maneira.

É por isso que, espreitando uma nuvem negra lá fora, publico o postal com neve da praxe, a lembrar que há outras latitudes em que as coisas podem ser piores, muito piores. Tipo a Gronelândia.

A friend of ours, Theis, is in Greenland at the moment on a film shoot. He took this photo of a citizen inNanortalik on his Christiania cargo bike. It was only a balmy -10 C at the time but getting around the town is easy peasy on human-powered wheels.

Copenhagenize.