Um pé lá em baixo e a cabeça cá em cima (um título com sentido, uma vez na vida)

Aproveitando o regresso da frequente romaria a Beja, dei uma voltinha um pouco maior do que o costume e fui trocar dois dedos de conversa com os amigos de Lisboa. Aproveitei e conheci a ciclovia surreal que liga Telheiras a Benfica. Afinal a incompetência é generalizada.

O encontro foi à porta de casa do César, no epicentro da revolução ‘transicional’ em terras marroquinas, onde tive oportunidade de apreciar um “quiver” de big rider. O homem precisa de uma garagem e de um anexo para guardar tanta bicla.

Pois é, entre bicicletas doadas, xtracycles, binas para o triatlo, pasteleiras, biclas de senhora e uma ou duas motorizadas (uma delas até parece uma bicicleta), lá escolhemos duas racers. Uma Peugeot do mais Peugeot que há e uma Peugeot que o tipo que a vendeu disse que era uma Peugeot, mas que estava toda pintada de preto fosco e não dava para ver se era Peugeot e, caso fosse uma Peugeot, que tipo de Peugeot. Toda pintada, menos as rodas.

Escolhidas as montadas, lá fomos ciclovia fora (literalmente, porque fizemos boa parte mesmo fora da coisa, tal a acumulação de estupidezes), até encontrarmos o João Peixoto, que se quis juntar à malta para mais um momento cycle-chiq com quê de quá-quá à maneira, onde  trocamos algumas ideias e projectos para os próximos tempos. É esperar, que a coisa promete.

Ficam as fotografias do que verdadeiramente interessa. Biclas e finórios.

Ouvido na Praia

Só apanhei a conversa a meio.

Dois jovens acompanhados de uma jovem, todos aparentando estar no lado errado dos quarenta. Um deles com ar boho-idon’tcare-urban-coiso, com uns óculos de massa à maneira,  tem encostada à esplanada uma daquelas Rock-rider da Decathlon com pneus de lavrar terra e holofote para ir aos gambuzinos novinha em folha. O outro, com um ar menos boho-idon’tcare-urban-coiso, mas com uma coisa chamada “Espacio Público como Ideologia” de Manuel Delgado Ruiz na mão.

Com um forte sotaque lisboeta, um diz, meio impressionado, meio apanhadinho:

Ela anda pela Baixa numa daquelas de roda fininha. Pega na bicicleta e carrega-a ao ombro até ao quarto andar.

O outro, num tom de quem está quase a começar:

Ela é rica. É uma questão de atitude, de começar.

A Monocle merece um mega post

A revista Monocole está na moda e muito bem. É uma referência internacional no que respeita a publicações periódicas e ainda por cima é carregadinha de classe. Com uma influência sem precedentes junto do seu público alvo (malta relativamente nova, culta, com dinheiro, noção de estilo e claro, algumas pretensões), num formato dedicado quase em exclusivo ao papel, mas com uma presença na web e no pseudo éter  dos podcast do iTunes onde o Tyler Brûlé puxa pelo seu melhor sotaque BBC, trata de temas como as relações internacionais, negócios, urbanismo, design ou estilo de vida. Tudo com uma tónica na  inovação, sustentabilidade, criatividade e com um embrulho no mínimo luxuoso.

capa da edição dedicada à qualidade de vida

Um ponto distintivo da revista é a publicação de um ranking anual da qualidade de vida (quality of life issue) feito tendo em conta as cidades que os editores da revista conhecem minimamente (um processo democrático, portanto). Este ano Lisboa ficou-se pelo 25º lugar e nesta mesma edição (volume 04, n35) o Porto foi palco de uma produção de moda, preppy QB como sempre, tendo como palco o passeio marítimo em Leça (Casa de Chá da Boa Nova e Piscinas das Marés), com direito a elogios rasgados à gastronomia e arquitectura, obviamente merecidos e aos quais, no papel de humilde cidadão de tamanho paraíso na terra, retribuo com um post XL.

Biclas em Munique, nº 1 no ranking de 2010

Toda esta publicidade à revista (com toda refiro-me ao tamanho do texto, não ao da audiência aqui do tasco) é para aqui chamada porque, para além dos conteúdos normalmente muito bons (e expostos de forma ainda melhor) o conceito de qualidade de vida urbano que transpira das suas páginas (uau) tem tudo a ver com o que defendo, destacando-se a mobilidade sustentável, a existência de espaços verdes, de coisas para fazer (e comprar), um ambiente propício ao empreendedorismo, transportes públicos eficazes (até aqui tudo óbvio), liberdade para as biclas e um certo slow-living que apenas as cidades de pequena e média dimensão conseguem oferecer. Dica grátis: verificar a dimensão das cidades no top 25, que exlclui Londres ou Nova Iorque, por exemplo.

O tema bicicleta é central a toda a revista, tendo-se intensificado a monocle bike mania nos últimos números . É um item avaliado no ranking, um tema de produções de moda, um acessório para a publicidade às lojas (figurando uma no exterior da loja de Londres, p.e.) e um artigo comercializado com a sua marca  (que tem coisas fantásticas, mas caras até para um londrino bem na vida).

750£ pela bicla da Monocle. Está barato, tendo em conta que vendem um saco de ir às comprar por 100€.

É muito raro um número recente da revista em que não aparece uma bicicleta representada em grande parte das suas páginas, seja com um líder local sentado em cima, sendo a enquadrar uma paisagem urbana ou a ilustrar o empreendimento criativo do momento, como uma cultura de abelhas no topo de um edifício de escritórios ou uma oficina de reparação de sintetizadores dos anos 70 (estou a exagerar).

Na edição de Setembro (n 36), sob o tema “Rebranding Britain”, a vez de ver os seus meios de transporte analisados calhou a David Cameron, claro está. Na base da pirâmide, em vez da tradicional limousine, está a sua querida Scott preta e prata, que costumava conduzir para o emprego antes de ser eleito primeiro ministro. Até se conta que um dos seus ainda poucos escândalos no curriculum deve-se a ter sido filmado a passar um vermelho em Londres na sua quinga de estrada, que também é conhecida por ser frequentemente roubada (descobri isto quando procurava a imagem no google).

A bicla de Cameron na base da sua lista de transportes. O estilhoso em baixo é um actor de novela turco que está a fazer furor na Grécia. Não tem nada a ver com o artigo.

Note-se que o papel da bicicleta começa a ser tão relevante na revista, que é frequente encontrá-la nos mais diversos anúncios publicados, incluindo destinos turísticos como Taiwan ou Barcelona.

Visite Barcelona, leve a Bicla.

Para terminar, espero que a visita ao Porto para o editorial de moda tenha sido feita ao fim-de-semana, o que os levaria a pensar numa biclo-mania em terras tripeiras, tal a quantidade de guerreiros do asfalto (devidamente artilhados para quedas em ravina) que entopem os nossos passeios marítimos e a marginal nesses dias. Se por outro lado a visita tiver sido  à semana, então nunca mais entramos no ranking.

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