Fotografia: Hugo Cardoso (Bob).
E na quinta-feira as cadeiras disponibilizadas pelo pessoal da APRUPP não foram suficientes para todos os que apareceram na Garagem do Comércio do Porto para participar na segunda tertúlia desta associação.
Claro que não posso deixar de referir a alegria que senti ao ver tanto pessoal amigo a juntar-se a nós antes da hora marcada e o grande número de bicicletas que marcaram presença neste carismático templo do automóvel.
É bom sinal. Bom sinal, porque para além do crescimento muito significativo de ciclistas na cidade, podemos constatar que a bicicleta é um ponto de união fantástico, juntando quase diariamente pessoas que aparentemente poucas coisas têm em comum. No Porto, a Massa Crítica é todos os dias.
A minha intervenção foi basicamente um périplo por postais antigos aqui da Adega do Ciclista, tentando demonstrar a ciclabilidade da Querida Imbicta com imagens de um passado mais amigo do pedal e com fotografias e histórias de ciclistas urbanos tripeiros. No final, apresentei algumas sugestões para melhorias fáceis e de baixo custo na cidade.
Para quem esteve na tertúlia, seguem as ligações para cada uma das coisas que mostrei:
1. A ciclovia da Ponte da Arrábida, bicicletas em Brito Capelo e as ciclovias da Avenida AEP;
2. A quantidade de ciclistas em cidades potencialmente agressivas para as bicicletas, como as montanhosas Berna ou Ferrara, a gelada e acidentada Trondheim ou as fustigadas pelo vento e frio Amesterdão e Copenhaga;
3. O pessoal a pedalar na zona da Praça da Galiza, os turistas sem medo e os exemplos de ciclistas que cá deixaram testemunhos como o Mário e o seu triciclo à prova de cidade; o Manuel Pedro que não se vê a entregar coisas de outra forma; a Amélia de calças brancas e salto alto; o meu pai, ciclista envergonhado; o Zé Lucas, a preparar mais uma bicla para a cidade; a Inês, que deixou a bicla em Londres para passar a andar de carro no Porto, ou não; o Rui, que passou a usar a bicla quando lhe fizeram uma ciclovia; a Edite e a sua single speed 24”; e, finalmente, o Paulo e o Manel mais as canas de pesca.
4. Pessoas a descomplicar a vida na bicicleta, como o Hernâni da bicicleta musical a transportar coisas; o filho da Cristina a ir às compras; o duende a carregar 18 quilos de comida de cão; a Luísa, ciclista hardcore, a passear o cão (literalmente); aqui o Velho Lau a carregar a descendência, uma, duas, três vezes; o Henrique, a Sofia e a Mafalda mais o carrinho de bébé; o César a carregar dois de uma só vez; a Cristina a descomplicar a brincadeira; eu e a Alice a partilhar a bicicleta; o Miguel a ir buscar a namorada de tandem; o casal sem medo da Rua Formosa; o Ricardo e o Nuno, empresários e mensageiros a Pedal;
5. Coisas simples que podem melhorar muito a ciclabilidade da cidade, como o já permitido transporte no comboio, metro e funicular; a criação de um corredor ciclável da Senhora da Hora (ou mais a Norte ainda) e a Rotunda da Boavista; a reactivação dos elevadores na Ponte da Arrábida e a dinamização do Elevador da Lada; o aproveitamento do Ramal da Alfândega; a criação de estacionamento de bicicletas em condições; a aposta no bike-sharing; o transporte de biclas nos autocarros; a pintura de ciclofaixas e bike boxes; a redução dos limites de velocidade dos automóveis; e a fiscalização do estacionamento abusivo nas ciclovias e ciclofaixas;
6. O trabalho que a freguesia da Adega está a fazer no projecto dos mapas.
Finalmente, registo o entusiasmo de Álvaro Costa pela mobilidade em bicicleta no Porto, tendo terminado a sua participação com este soundbyte fantástico:
O Porto não tem grandes pendentes: entra tudo de nível.
A minha apresentação pode ser descarregada em PDF aqui.

Não tive oportunidade de falar contigo no final da tretúlia, mas gostaria de dizer que gostei bastante da apresentação por ter conseguido desmistificar o uso da bicicleta no Porto, por ter sido a apresentação mais dinâmica e apelativa, sendo capaz de fazer história útil para pensar o presente, com propostas concretas e não apenas reclamações “porque tenho 2 carros e não tenho onde estacionar”, poupem-me… Muito obrigada pelo teu contributo, Miguel ;)
Obrigado Patrícia,
Foi muito bom ver lá tantos amigos que tanto têm ajudado a cidade a ser mais acolhedora para as biclas.
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Miguel
Como organizadora do evento, agradeço-te via este teu sítio, o grande contributo que deste à Tertúlia, foi sem dúvida uma apresentação muito dinâmica e objetiva, no sentido de desmistificar o uso da bicicleta na cidade. Foi também muito bom, ver aquela “invasão” de bicicletas no “tempo do automóvel”, como tu próprio dizes.. Relativamente ao comentário, queria apenas esclarecer que o tema da Tertúlia era a Mobilidade no centro como estratégia de reabilitação (regeneração) urbana e a devolução das famílias ao centro. Assim, deve haver tolerância para quem precise de usar o carro (porque infelizmente nem todos conseguimos fazer as nossas deslocações a pé ou de bicicleta, por mais que a vontade seja muita) e que ainda assim apostou no centro para morar. O espaço no centro é pouco, não existem muitos lugares de estacionamento, por isso tem de haver uma política de “racionamento” dos lugares e de discriminação positiva a quem queira lá morar, em detrimento de visitar. Os automobilistas não têm de ser sempre os vilões, desde que respeitem o espaço dos outros e sobretudo aqueles que ainda apostam na reabilitação e no centro para morar. Mas é apenas a minha opinião. Sílvia Magalhães
Muito obrigado Silvia!
Já agora, gostei muito da frase do Pedro Pinheiro (de quem publiquei agora mesmo um testemunho num post), que disse:
“Os meus pais vieram de Rio Tinto para o Porto porque não queriam ter carro.”
É nisto que a cidade tem que apostar: serviços e comércio de proximidade, transportes públicos em condições.
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