Um direito recusado

 Já tinha dito que ando de bicicleta sem merdas.

Pego na bicicleta e naquilo que tiver que pegar e vou. Vou carregado com pessoas e tralhas, sem capacetes, sem frescurinhas, mas com cuidado e o respeito possível pelo código de estrada.

Há vezes em que passo vermelhos, admito. São aquelas em que não vem ninguém. Há vezes em que ando em sentido contrário, quando não há perigo, objectivamente. Pecadinhos inocentes, justificados por ser apenas a minha integridade a estar, no campo teórico, em risco.

Há coisas que não faço. Entre essas coisas que não faço, inclui-se andar em cima de passeios. É que acredito que há uma espécie de hierarquia na estrada. Essa hierarquia é a inversa da da maioria das pessoas que usam a rua e tem como o seu topo o querido peão e, bem lá na base, os pesados e usurpadores monstros fumegantes de lata.

O peão manda. O peão é mais que as bicicletas, é mais que os carros, é mais que os outros peões que correm. É mais que o metro e mais que o autocarro.

O peão tem o direito à cidade. Tem o direito de cortar a direito sem olhar e o direito de andar a direito sem se desviar. Somos nós, todos os outros, que lhe negamos esse direito. Aos bocadinhos.

É por ter isto bem presente, que há dias, muitos, quase todos, em que me sinto culpado. É nos dias em que carrego o meu bem mais precioso na bicicleta.

Não tenho carro e não me sinto na obrigação de o ter. Sinto-me no direito de transportar o meu filho na bicicleta e sinto esse direito negado por não ter por onde.

Entre Leça, a escola, e a Rotunda da Boavista, a casa, são uns bons quilómetros. Tirando os paredões à beira-mar, não há ciclovias,  só aquilo na Avenida da Boavista, que obriga a uns atravessamentos radicais.

Depois disso não há mais nada. Só o passeio. E é pelo passeio que vamos. Devagar, a ritmo de peão quando os há. Tilinto a campaínha, com um sentimento de culpa e um sorriso embaraçado, a pedir desculpas por não meter o meu filho no meio do inferno de lata.

Hoje, um dos dias mais quentes do ano, subi como sempre a Boavista. Contei dezenas de ciclistas. Uns no meio dos carros, outros no passeio, outros na faixa BUS. Todos sem saber por onde ir.

Alguns deles eram velhos conhecidos, outros nem por isso. Quase todos sorriram para o rapaz da bicla esquisita que leva o filho atrás.

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14 thoughts on “Um direito recusado

  1. Eu lanço o meu sorriso e agradeço sempre que passo pelos peões no passeio. Ando ao ritmo dos passos de quem caminha e como tal até hoje nunca ninguém disse nada. Respondem muito com sorrisos.
    Sinto que também eles (os peões) compreendem e saúdam esta opção de circular com 0% emissões e 100% vento na cara.

  2. Olá, Miguel!

    Folgo em ver o tasqueiro-mor da Adega de volta (já há umas semanas, diga-se) e com a qualidade “tradicional” das suas postas de pescada!

    Também tenho pensado nesta questão nos últimos tempos: tenho um filho que provavelmente para o ano irá para a Escola e ao ver aquelas fotos ciclo-chiques dos papás/mamãs nórdicos a levar os seus petizes penso: “como é que algum dia vou poder fazer isto?”. E então vem o dilema do passeio: mais seguro mas interfere com os peões — os últimos a ser importunados.

    Sobram então as ciclovias — de que eu gosto — mas que são sobretudo úteis para passear.

    Em última análise também me sinto impelido para o passeio mas que, convenhamos, só é viável com a tradicional “boa-vontade” de quem vendo a criança, percebe a opção (ou a falta delas).

    • Com putos, sobra pouco mais do que os passeios, infelizmente. As ciclovias por cá são assassinas… olha aquela que passa em frente ao Estado Novo, de duplo sentido numa via de sentido único, com atravessamentos automóveis gigantes de 20 em 20 metros…

      • Eh, eh… Moro nessa rua…
        Uso essa ciclovia com frequência (com miúdo e sem ele) e não acho a coisa tão caótica como isso (já tinha percebido que achas…).

        O que estraga a utilização dessa ciclovia é que muita gente pára em cima das passadeiras dos cruzamentos, o que dificulta a visibilidade. E também o facto de, sendo uma rua construída na lógica de “muito larga/muitos carros/muito escoamento”, resulta numa pista de aceleração brutal! O que vai contra as tendencias que vamos vendo noutros sitíos de criar constrangimentos de forma provocar diminuição de velocidade…

        Mas olha que apesar de tudo a malta até respeita a coisa. Nunca tive grandes problemas… (dizer isto é sempre um risco… amanhã se calhar estou aqui a contar o contrário com uma “perna ao peito”… mas lá vai… )

  3. Miguel, se anda na sua bicla a 5 Km/h no passeio, não se trata de uma bicicleta, é mais um peão com rodas – se é um peão com rodas porque não há-de andar no passeio ?

  4. Ali mesmo em frente ao Rodrigues de Freitas, às vezes quando o está vermelho no semáforo da Augusto Luso para o Largo do Priorado e também para evitar aquele paralelo manhoso, galgo com a bicla para o passseio e dobro a esquina da Junta de Freguesia de Cedofeita. Hoje a coisa ia correndo mal. A simpatia do senhor e o meu imediato pedido de desculpas terminou com um sorriso e cumprimento mútuos

    Sabendo disso tudo, e mesmo com os cuidadinhos todos, haverão sempre alturas em que temos de arriscar pôr as rodas onde não é suposto.

    Cumprimentos ao rapaz da bicla esquisita que leva o filho atrás.

  5. Parabens Miguel pelo teu texto bem urdido; de antologia, mesmo. É uma cultura cívica que não se aprende nas escolas e que nos meios ciclistas cá do burgo, não está interiorizada. Merece toda a divulgação possível. É uma boa posta , como diz o Sérgio.

  6. e eu ha uns tempos vi-te, 1penoporto, a subir a avenida da boavista ao pe do foco pelo passeio… estava para gritar LOL mas nao tinha a certeza.
    Confirma-se pela foto :)
    grouchomarx

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