Testemunhos a Pedal XXXIII
Certo dia encontrei num cruzamento uma travessa de arroz de pato pousada no chão junto a uma velinha e a umas gravatas.
O testemunho tlinta e tlês chega à Adega do Ciclista num calhamaço enfiado na mochila de um atleta que, ainda com os bofes de fora, fez uma pausa na sua maratona para vir aqui trocar umas palavras com o pessoal.
Não é um testemunho muito ortodoxo, já que se trata basicamente de um relato de treinos que, por acaso, são realizados a caminho do trabalho. Tratando-se de alguém que encontrou no desporto a sua motivação para deixar o carro em casa, faz todo o sentido publicá-lo aqui.
Respiremos fundo e ataquemos então o testamento do Miguel Torres.
O meu caso é ligeiramente diferente dos que têm aparecido por esta Adega. Nasci e vivi durante muitos anos no Porto e sempre estive habituado a fazer deslocações de casa para a escola e faculdade a pé.
Sempre adorei andar de bicicleta. Não sei como começou, mas esta paixão esteve sempre muito associada ao ciclismo desportivo. Vejo a Volta a Portugal desde pequeno e acompanho o Tour desde os tempos do Miguel Indurain. Talvez até por influência do ciclista espanhol, o meu coração bate 39 vezes por minuto em repouso.
Gostava tanto de ciclismo, que em 1999 federei-me como júnior, conseguindo alcançar honrosos últimos e penúltimos lugares em diversas provas. Abandonei a modalidade para a tornar mais competitiva, mas hoje pratico triatlo, tendo resultados (muito) ligeiramente melhores.
Por fim, em termos profissionais, acabei por estar envolvido em diversos planos relacionados com a mobilidade ciclável e a implementação de redes de ciclovias, parques para bicicletas e bicicletas de utilização colectiva. Pude, nessa altura, no trabalho de campo, aliar a minha profissão ao prazer de andar de bicicleta, algo que só pensei ser possível se tivesse melhor sorte nas provas velocipédicas.
Há seis anos atrás fui viver para Vila do Conde, o que significou uma grande alteração nos meus padrões de deslocação. Neste momento, como muitas pessoas da minha geração, não tenho um emprego certo, encontrando-me a fazer alguns trabalhos como free lancer e à procura de algo mais seguro. Por isso não tenho um dia igual ao outro. No entanto, durante alguns anos trabalhei na Faculdade de Engenharia e, também, na biblioteca de Valongo (na revisão do PDM). É desses percursos que vou falar (no presente para ser mais fácil a leitura).
Ambos os percursos têm entre vinte e trinta quilómetros. Quando falo nisso, a maior parte das pessoas dizem ‘O quê? Tantos quilómetros? Isso é impossível, não acredito!’
Mas os meus colegas do triatlo têm mais tendência a dizer ‘Só? E como fazes para treinar o resto?’.
É, por isso uma solução híbrida, viagem pendular a mais e treino a menos. E para tornar mais difícil, geralmente levo uma mochila com tudo para tomar banho, uma muda de roupa e calçado (porque vou com sapatilhas de encaixe), ficando uns sete ou oito quilos mais pesado.
Por um lado não sou um ciclista típico de estrada, porque ando de mochila às costas e vou trabalhar. Por outro, não sou um ciclista típico aqui da Adega, porque ando de bicicleta de estrada comprada ao Boavista, calções de lycra, pedais de encaixe e capacete. Enfim, basicamente sou um maluquinho para todos. Não-ciclistas, ciclistas de estrada e ciclistas urbanos.
Vamos então falar dos percursos que, para quem não sabe, são feitos em menos tempo de bicicleta, do que de transporte público (Metro e Comboio).
Vairão – Asprela (22 km)
Para quem anda como eu em bicicleta de estrada, o paralelo é algo irritante, para não chamar outros nomes. A primeira parte tem mesmo que ser assim, ou não morasse eu numa rua de paralelo. Segue-se a N306, que acompanha o Caminho Português de Santiago em quase toda a sua extensão. Pouco trânsito, mas uma estrada estreita com algumas curvas e pequenas subidas e descidas.
Já em Modivas, chego à N13, uma estrada com bermas largas e com um sobe e desce constante, mas pouco inclinado. Quando chego à rotunda de Padrão de Moreira, viro à direita e sigo pela antiga Estrada Nacional, agora uma rua, sem muito trânsito mas com alguns semáforos que vão diminuindo a minha velocidade.
Chego à circunvalação na rotunda do Monte dos Burgos e depois sigo sempre por essa estrada até ao Hospital de S. João, onde viro pela António Bernardino de Almeida e, logo a seguir, sigo pelo passeio da Dr. Plácido Costa até à Faculdade de… Desporto, onde posso tomar um duche nos balneários por pertencer a um grupo de treino de triatlo que utiliza aquelas instalações. Sim, porque é impossível não transpirar num percurso de 22km que, apesar de acessível, tem muitas subidas ligeiras. Transpiro sempre, seja Verão ou Inverno e, por respeito aos meus colegas de trabalho, tomo sempre banho.
Penso que qualquer pessoa que saiba andar de bicicleta consegue fazer este percurso, dependendo o grau de cansaço no final da forma física dessa pessoa. Já houve alturas em que me cansei mais a fazê-lo, outras que me cansei menos. Andei igualmente numa fase em que ia constantemente a tentar bater o record. O melhor foi 47 minutos, com a ajuda da nortada, mas o habitual rondava os 50 – 55 minutos. De metro, o mínimo que demorei foi 1h15min, o que diz bem da diferença entre os dois modos de transporte. Apesar disso, de carro é possível fazer o percurso em pouco mais de 20 minutos.
O regresso é ligeiramente diferente e com o vento de frente. Para não apanhar muito trânsito na circunvalação sigo pela Arroteia até São Mamede de Infesta, desço até à Ponte da Pedra e depois subo até Catassol (uma subida mais puxadinha que as anteriores). Depois, atravesso a Maia, passo pelo isqueiro e viro à esquerda passando por cima da N14 e descendo em direcção à Zona Industrial.
Antes de atravessar o IC 24 viro à esquerda e sigo pela Guarda até ao cruzamento de Padrão de Moreira. Depois viro à direita e faço o percurso que relatei antes pela N13 e N306. O regresso é um pouco mais duro, com subidas mais inclinadas, sobretudo no final, em paralelo.
No Inverno, como não consigo regressar de dia, e tenho medo de andar nestas estradas às escuras, opto por apanhar o Metro. Como para o apanhar no Pólo Universitário ou IPO tenho que ir à Trindade e mudar de linha, opto por cortar caminho até ao Bairro de Ramalde onde apanho o Metro até Mindelo. Em Mindelo volto a pedalar mais 20 minutos estrada acima até Vairão.
Vairão – Valongo (26 km)
Este percurso é ligeiramente mais duro que o anterior, com algumas subidas interessantes. Começa logo a subir por um troço em paralelo, intercalado com alcatrão junto à fábrica de Kayaks Nelo (que estão sempre em grande nas olimpíadas), até alcançar a N318 (Vila do Conde – Lousada), onde se sobe mais um pouco até à Santa Eufémia (este é o primeiro prémio de Montanha).
Depois é sempre a descer passando pelo Parque de Avioso até aos semáforos da Carriça. Esta estrada passa pelos concelhos da Maia, Vila do Conde e Trofa e nos troços deste último concelho o piso é terrível. Imensos buracos, água nalguns deles, alcatrão muito deteriorado, enfim, do pior. Além disso, é uma estrada de Camiões TIR, já que pouco depois do cruzamento da Carriça situa-se a plataforma logística da Transmaia (que por sinal, apesar do nome situa-se no concelho da Trofa).
O pior surge quando se atravessa o Muro, S. Mamede do Coronado e S. Romão do Coronado. Chega a ser doloroso andar a subir e a descer perante tanta confusão. Mas também se descobrem coisas estranhas, só possíveis de ver quando se anda de bicicleta. Certo dia encontrei num cruzamento uma travessa de arroz de pato pousada no chão junto a uma velinha e a umas gravatas. Depois por lá continuou durante algumas semanas.
Depois dos Coronados chego à Camposa, onde viro à direita para novo Prémio da Montanha em S. Miguel-o-Anjo. São quase 3 km de subida contínua, não muito dura, mas que faz suar um pouco. Segue-se uma descida semelhante até Alfena. Em Alfena ainda faço uns metritos na N105 mas viro logo para Valongo, noutra estrada de mau piso e com um novo Prémio de Montanha, curto, mas o mais inclinado dos três. Segue-se uma longa recta junto ao Rio Simão até chegar a Valongo. Neste caso a viagem vai para mais de uma hora e é bem mais agressiva que a anterior. Em Valongo, utilizo as piscinas municipais para um banho retemperador, mas depois ainda tenho que fazer mais uma subida complicada até chegar à biblioteca.
O regresso, no Verão, é o caminho inverso, já no Inverno, à noite, apanho o comboio no apeadeiro de Susão até Campanhã e depois o Metro novamente até Mindelo, seguindo-se os tais 20 minutos a subir. Este regresso chega a durar perto de duas horas.
Conclusão
Não sendo treinos muito puxados, sempre dava para suar e libertar endorfinas antes do trabalho. Já fiz ambos os percursos a pesar 90 kg (agora peso menos 15 kg) e em baixo de forma, por isso fico com imensa vontade de rir quando alguém diz que não anda de bicicleta para fazer um percurso de 4 ou 5km porque não tem capacidade física. É apenas uma questão de vontade, nesses casos.
Já em relação ao medo dos veículos motorizados, posso perceber, mas nada como experimentar e jogar à defesa (ou ao ataque). Não fazia estes percursos diariamente, mas cheguei a fazer 4 vezes numa semana. Dependia da hora do anoitecer e das condições atmosféricas (andar à chuva e à noite por estes percursos ainda é algo que me amedronta), mas penso que posso no futuro vir a ultrapassar estes medos. Não faço ainda a ideia para onde irei trabalhar, mas qualquer que seja o sítio, por certo encontrarei forma de ir de bicicleta (e de tomar banho).
Os percursos do Miguel estão ali na barra da direita.





Falta o percurso Vairão-Asprela. ;-)
Pois falta. O Miguel esqueceu-se de enviar esse (por isso não coloquei os links no post). Ainda hoje ficará resolvido e aviso aqui nos comentários quando estiver.
Abraço!
valente! acho que é o percurso mais acidentado e com a maior distância aqui dos testemunhos. essas coisas engraçadas que se encontram nos cruzamentos é frequente vê-las ali mais para os lados de gaia, em redor de miramar e da capela do senhor da pedra! já vi na praia da madalena dois pratos sujos de comida, duas taças, uma garrafa de espumante e duas rosas vermelhas…
O mapa Vairão-Asprela já está na coluna da direita. Dois excelentes contributos para o mapa global.