A Grande Crónica do Caminho – Tomo 3, de Redondela a Santiago (e depois Vigo e Porto)
Uma hora, mais minuto, menos minuto, foi o tempo que demoramos desde o toque de despertar do videofone até nos fazermos novamente à estrada. Acordar todo empenado num hotel, a bem dizer manhoso, mas com uma vista prodigiosa, deu vontade de fazer um skip à segunda parte da viagem.
Uma vez em pé, enquanto se esperava vez para o duche (estávamos três no quarto), foi tempo para contar os ossos a ver se cá estava tudo. O balanço não era grave: uma pressão forte nos ombros, resultado disto e um mega escaldão nas costas, prémio por ter pedalado com uma camisola perfurada que costumo usar para correr. Possivelmente não foi um mega escaldão, mas milhares de nano-escaldões.
Como a minha mãezinha costuma dizer, e bem, o pequeno-almoço é a parte mais importante do dia. Houve então que tomar um grande pequeno-almoço para compensar a desgraça do jantar da noite anterior, quer dizer, nós tomamos um grande pequeno-almoço, o Carlos tomou para aí quatro grandes pequenos-almoços. Consideramos esta refeição tão importante, mas tão importante, que a quisemos prolongar enchendo as mochilas com o que deu, tendo havido inclusivamente um mini-saque a uma mesa onde estavam umas barras de cereais meio escondidas e que foram providenciais em alturas mais complicadas do dia.
Ao pequeno-almoço oficializamos a nossa relação com grupo mais lento, com uma frase do género: ‘têm aqui o nome e a morada do hotel em Vigo onde é para ir ter – a linha do comboio acompanha o Caminho e há estações em todos os lugarejos. Vamos falando’. Aliviados com a ausência de pressão, despediram-se enquanto ainda tomávamos o pequeno-almoço, com um ‘vamos indo para não atrasarmos muito’.
Quando cheguei cá fora, reparei que aquilo que no dia anterior eram duas mochilas (do pessoal sem porta-couves), se tinha transformado numa só, que por azar só cabia na minha bina. Carrega Paganini!
Minutos depois, zingzingzingzingzingzingzingzingzingzing…. aparece novamente o grupo mais lento, com um ‘perdemo-nos’. Acabamos por sair todos juntos, para logo a seguir nos voltarmos a separar, já que em Redondela, o Caminho começa a subir Montanha acima.
Vencida a primeira subida do dia, restou descer a bom ritmo um estradão com uma vista fantástica. Este bom ritmo, que impusémos até ao final da jornada, foi essencial para conseguirmos chegar a Santiago a uma hora decente, mas fiquei com a certeza que, com etapas mais curtas, podíamos ter aproveitado melhor o passeio, já que da vista fantástica só tivemos um vislumbre, ou dois, já que na verdade não era apenas uma vista fantástica, mas duas: no meio da estrada estava uma barraca esotérica alusiva ao Caminho, com uma pequerrucha no atendimento que os que vinham atrás não se cansaram de gabar (faça-se um singular aqui).
Entretanto ainda fizemos uma pequena pausa numa ponte medieval, onde se avaliou a condição do pessoal após os primeiros quilómetros. A ideia era acelerar bastante daí para a frente, coisa que não aconteceu logo, porque os romanos eram completamente doidos e puseram-se a meter penedos monte acima, numa de Estradas de Portugal (Estradas da Galécia na altura em que a coisa aconteceu). Aquilo na altura devia ter tanta utilidade como um dia destes terá a auto-estrada paga paralela à A3, já que o caminho em terra batida ou saibro servia melhor do que aquelas coisas todas tortas e escorregadias.
Depois da tortura romana, apanhamos uma zona relativamente plana ou pelo menos sem grande montanha, onde conseguimos manter um ritmo entre os 20 os 25km/h, com muitas secções a 30km/h, pelo meio de campos e algumas matas. Nesta parte tivemos alguns episódios engraçados, como os milagres sucessivos efusivamente festejados,que aconteceram quando a estrada começava a subir abruptamente, mas as setas amarelas indicando o Caminho nos enviavam para desvios planos ou a descer, ou o do boxer preregrino que nos saiu aos pés a rosnar no meio de um milheiral.
Depois de alguns quilómetros no asfalto, onde foi filmado o já célebre “vai Paganin, ó Paulo dá-me água“, fizemos uma pausa para comprovar a minha teoria de que os galegos gostam de tudo, menos de trabalhar, já que são pessoas extremamente simpáticas em todas as alturas, menos quando estão a atender clientes. Curiosamente o mesmo se aplica aos autóctones do sítio onde estou a escrever isto.
Depois de termos tomado café e abastecido de água, seguimos todos felizes e contentes para a parte mais dureza do trajecto, com uma subida do pior que há pelo meio do monte, onde ainda encontramos muita peregrinagem e que culminou no segundo melhor negócio do Mundo, já que, ao contrário do primeiro (a máquina de vending do Tomo II da Grande Crónica do Caminho), este implicava custos com a massa salarial.
Foi aí que bebemos uns Aquarius (quer dizer, nós bebemos uns Aquarius, o Carlos bebeu uns quatro), compramos água e ainda marchamos umas empanadas de uma coisa não identificada, que me garantiram não ser carne e que tinha umas uvas passas a dar colorido. Nessa altura conhecemos dois peregrinos brasileiros apeados, supostamente pai e filho, que vinham de Natal e por isso estavam equipados como o João Garcia quando vai treinar para o Monte Branco no Inverno. Gostei da teoria do mais velho, que queria voltar para fazer o Caminho pela costa, para provar que originalmente este era feito mais a Ocidente, passando Santa Tecla e uma série de coisas religiosas suas congéneres.
Depois desta pausa rolamos suavemente até Caldas de Reyes. Ao longo do trajecto comecei a ficar preocupado com a minha condição física, já que me sentia bastante forte nas pernas e sem força nos braços, o que obrigava a subir sentado, ou apeado, obrigando a baixar um pouco o ritmo. Não é de estranhar que isto tenha acontecido, já que tinha comido poucas proteínas no dia anterior e a falta de amortecimento na roda da frente fez com que grande parte da pancada estivesse a ser amortecida com os braços. Por outro lado, tenho as pernas bem treinadas, pois o único desporto que pratico actualmente é a corrida, o que me dá alguma resistência nos membros inferiores (piadinhas de mau gosto à parte).
Em Caldas atascamos no Moiño, recomendado por um dos papéis do Paulo e onde acabamos por almoçar. Na parte que me toca, foi um almoço de campeão: o equivalente a três carcaças encharcadas em azeite (do rasca), umas picadelas num polvo ultra-picante do Carlos (um dos quatro que ele comeu) e duas Superbock razoavelmente geladas (um verdadeiro momento cycle-chiq com quê de quá-quá).
Depois do almoço, partimos para o penúltimo dos grandes prémios da montanha, já debaixo de um sol abrasador e sem peregrinos apeados à vista (pelos vistos recolhem durante as horas de canícula). Chegado ao cume, um pouco atrasado relativamente à fuga, encontrei aquilo que também podia ser um grande negócio, mas não era, porque era de graça: uma bica de água, onde o pessoal se abasteceu e tomou banho.
Nessa altura fui à mochila vermelha, com a carga do grupo mais lento, procurar um protector solar, quando, para meu espanto, descobri que o Velho Lau, na sua versão Bettini, andava a carregar cremes de beleza monte acima e monte abaixo! Entretanto, meio morto de cansaço, o Carlos ia telefonando ao resto da peregrinagem a dizer que estava quase, que já faltava pouco (clop!).
Refeitos do choque dermocosmético, lá descemos outra vez e, quando já rolávamos há um par de quilómetros pela estrada de asfalto que liga a Pontevedra, o Paulo descobriu que se tinha esquecido dos óculos lá em cima, na bica de água.
Eu, sinceramente, pagava 200 euros para não ter que trepar aquilo tudo outra vez, mas ele disse que ia buscá-los e foi. Foi na bicla do Carlos, por sugestão minha, já que estava bastante menos carregada. Foi aí que se descobriu que o melhor bicho para a viagem é a Etielbina, já que mesmo carregada oferece um melhor rendimento a subir do que a ultra-amortecida bicla do Carlos, ou que a sub-amortecida Specialized que eu levei. Também se descobriu que o Paulo, o mais maduro dos três, apresenta de longe a melhor forma física para este tipo de espectáculos.
A partir daqui há pouco a acrescentar. Esperamos à entrada de Pontevedra, tendo seguido depois para o último grande prémio, que culmina a 4kms de Compostela, com a Catedral já á vista. A partir daí desce-se com entusiamo, sendo a parte onde normalmente há mais acidentes, já que o relaxamento leva muitas vezes ao erro. Regista-se também o vandalismo, com diversas marcações do Caminho piratas, a indiciar a existência de fortes rivalidades entre grupos de teóricos xacobeos, que para quem não sabe, são uns senhores barbudos a falar nos xotas.
E quando tudo parecia ter terminado, pumbas, esgotou-se o stock de milagres. Nova subida, pelo meio da cidade, até finalmente chegarmos à catedral, onde paramos num dos pátios para as fotos da praxe e de onde rumámos para a esplanada mais próxima com Superbock no cardápio.
Um par de horas depois apanhámos um dos média-distância, umas coisas com ar de Alfa-pendular, mas em melhor. Infelizmente o Paulo teve que ir separado, já que não havia lugar para as três binas em nenhum dos combóios. O desgraçado teve que fazer as duas horas de viagem (o problema não é só nosso) em pé, enquanto eu e o Carlos fomos confortavelmente a descansar a vista numas galegas que iam um pouco à frente com o pernil em cima do banco.
Chegados a Vigo, constatámos que, da cidades galaicas, a querida Imbicta deve ser das mais planas, já que depois da grande rampa em Santiago, esta se apresentava igualmente desafiante, tendo o Carlos querido levar-me ladeira acima com a garantia de que esse era o caminho para o hotel, quando afinal era no sentido inverso, a descer. A nossa sorte foi eu ter amuado e dito de forma quase violenta:
Nada. Enquanto estiver na Galiza, não me vês a dar nem mais uma pedalada no sentido ascendente.
Depois disso foi a história do costume dos portugueses em Vigo à noite, mas sem idas ao Barbarela ou snifs de cocaína em discotecas manhosas, o que quer dizer que pouco se passou para além de comermos uma pizza e termos ido para o hotel relativamente cedo.
No quarto e último dia da epopeia, tivemos direito a emoções fortes, já que, estando a 10 metros da estação, quase que conseguimos perder o comboio, tendo tido direito a chegada ao sprint (vai Cippolini!) montados nas binas, ignorando os berros do chefe de estação:
Piarém, que es proibidio andiar de biciclieta na platafiorma de la estácion de quiombióios!
No combóio, o até há pouco tempo moribundo Internacional da CP, foi difícil arranjar lugar, já que vinha praticamente cheio, indiciando que algo de mal se passa com a CP, uma vez que garantindo o serviço todo, o revisor, só entra a partir de Valença, proporcionando aos nossos irmão galegos confortáveis viagens entre Vigo e Tui a custo zero. Ainda por cima, com algumas contas, se chegou à conclusão que bastariam mais treze passageiros por dia para a linha ser rentável, o que não seria difícil seguindo uma de duas, ou mesmo as duas, táticas:
- cobrar bilhetes a partir de Vigo;
- melhorar o serviço, nomeadamente a rapidez da ligação e o coforto do material circulante para atrair mais vinte ou trinta pessoas (roubadas às SCUT).
Um facto curioso: com a total camaradagem e simpatia do pessoal da CP (tínhamos saudades de profissionais simpáticos), conseguimos ter mais de quinze bicicletas no compartimento de bagagem do combóio.
E finalmente chegamos ao Porto, onde se registaram as únicas avarias, uma logo à saída de Campanhã, com uma das meninas a encontrar a bina com o pneu furado, outra um par de dias depois, quando cheguei à garagem e encontrei a minha nas mesmas condições.
Finda a epopeia, resta planear a próxima. À partida será em Outubro, com saída no Porto e um ritmo mais lento para se apreciarem melhor os prazeres do Caminho.
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Crónica do Paulo no seu outro blogue – aqui.
Reportagem do JPN sobre esta viagem – aqui.
Album de fotografias no Facebook – aqui.









Engraçado que no dia a seguir ao regresso o pneu traseiro da Etielbina teimava em perder ar, o que me levou a empreender mais cedo a tarefa de lhe montar de novo os slicks! Deve ser alguma maleita que dá às binas no pós Santiago, tal como a contratura que eu trouxe aos ombros e da qual ando agora a ver se me livro com fisitoterapia. A ver vamos se estarei melhor para a epopeia outonal.
Abraço e boas férias
Foi do esforço extra a ir apanhar os óculos!