Foi o primeiro dia da minha história com a casa do Largo de S. Domingos em que não acordei com a extended edit do hino dos pastorinhos. Nesse dia eram seis da matina e os sinos da igreja em frente só começam a repicar a melodia às sete. Deve ser a hora que o Sá Cristão pega ao trabalho e deve ser a única versão que ele sabe tocar de ouvido. Quer dizer, tem que haver alguém a tocar aquilo. Não quero acreditar que eles têm a aparelhagem programada para acordar a paróquia sem que esteja lá antes um bom cristão a dar o exemplo.
Foi o primeiro dia sem os pastorinhos, mais ou menos. Houve um em que acordei às cinco com um supertio a dar corda às suas raízes minhotas, a tocar concertina debaixo da janela do quarto, mas, bem vistas as coisas, os peruanos a tocarem canções comanche só tinham ido embora um par de horas antes e por isso ainda não se podia chamar à coisa matina.
Onde tinhamos ficado no Tomo 1 da Grande Crónica? Pois, na converseta fiada até às 2h00. Já se está a ver o rico dia de sol que tivemos pela frente, com apenas quatro horas de sono.
Zingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzing. É um quarto para as sete e começa aquela que será a banda sonora do dia.
Zingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzing e depois de uma volta completa a Viana, o grupo encontra-se outra vez à porta de casa, já que a padaria entretanto tinha aberto. São sete horas e o pessoal finalmente comeu qualquer coisa, quer dizer, nós comemos qualquer coisa, o Carlos comeu quatro torradas.
Zingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzing e o pessoal foi para a estrada, com o Velho Lau a comandar as tropas. Primeiro aviso à navegação: não é sensato andar em trios paralelos na N13 em hora de regresso dos bezanos a casa.
Zingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzing e o pessoal entra nos caminhos paralelos à N13, que dão serventia aos milheirais que se extendem até ao mar. É o penúltimo dia de Julho e mais parece Novembro, tal o frio e a densidade da Neblina.
Zingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzing e só andamos quatro quilómetros e já temos um zomuomuomzomuomuomzomuomuomzomuomuomzomuomuom. Uma das meninas do grupo vinha com o aro no chão. Paulo, sempre atento, pegou na máquina e foi a uma bomba de gasolina encher o pneu.
Aqui Carlos dá a primeira lição de eficiência velocipédica. Mudanças pesadas significam menos esforço de pedalada (ou pelo menos menos pedaladas) quando a quinga está embalada explica ele a primeira de muitas vezes. Nenhuma das alunas lhe deu ouvidos, por isso continuou a ouvir-se o zingzingzingzingzingzingzingzing dos pedais a dar em seco pelo menos até Porriño, que foi mais ou menos onde o grupo passou a ser dois grupos.
Fomos até Moledo em afinações, tendo tido um ou outro momento de registo, como a curva cega da subida da Gelfa pela N13, momento que nos põe a rezar a muitos quilómetros de Compostela, já que os carros e camiões cortam rente ao rail como se estivessem no Circuíto da Boavista.
Em Moledo tivemos a primeira desconcentração. Um dos elementos menos rápidos decidiu ir indo, enquanto o grupo descansava, para não deixar ninguém à espera. Quando chegamos a Caminha uns quilómetros à frente e não o vimos, eu segui em perseguição muito ligeira pela N13, tendo só parado em Cerveira. Afinal o elemento disperso tinha feito Caminha pelo lado de fora, tendo sido apanhado pelo resto do grupo na ponte do Coura. Esperei por eles cerca de 20 minutos. Entretanto o sol decidiu aparecer.
Cerveira era o local combinado para o almoço. Estando programado um piquenique na margem do Minho, fomos às vitualhas ao inevitável Intermarché, templo do consumo rural. Foi nessa altura que o Carlos ofereceu a sua casa e piscina para local do banquete, coisa que o resto da peregrinagem aceitou com agrado, tendo-se alguém lembrado de comprar meia melancia de dois quilos para comemorar, ou seja, um quilo de fruta.
Havia que carregar então a meia lua durante um quilómetro, a acreditar nas palavras do nosso anfitrião, o que não era coisa fácil devido à forma do objecto. Chegou a cair do meu porta-couves, que não é apropriado para melancias e por isso se chamar porta-couves e não porta-melancias. Depois de um tombo memorável, decidi levar a melancia à mão. É que era só um quilómetro.
Lembram-se do ‘vai Paganini‘? É aqui que começa a história. Bettini (Paganini para o Carlos) foi, a par de Cippolinni, o meu grande herói do ciclismo. A sua capacidade de papar léguas em cima da bina era notável e só não era o waterboy porque era bom demais para isso.
Eu achei que podia exigir nome de campeão depois de carregar um quilo de fruta a escorrer, a pedalar só com uma mão e incapaz de meter mudanças durante quatro quilómetros numa estada a subir e a descer, tendo ficado muito perto de ter a lesão mais estúpida da história do ciclismo, tal a força que tive que fazer no braço.
Quatro quilómetros. Foi a primeira vez de algumas nesta viagem, que o Carlos meteu assim, vá lá, um petit chaço, para não desanimar a malta. A última foi um dia depois quando o vi telefonar ao grupo atrasado a dar moral e a dizer que já faltava pouco e o caminho era fácil. Tinhamos acabado de subir o Col d’Aubisque do Camiño Xacobeo Portugues e eu estava quase morto agarrado a um pacote de amendoins, o Carlos capaz de aviar quatro Aquarius de taco e o Paulo tinha ficado subitamente um dos tipos menos faladores que conheço.
Rewind. Chegamos a Cerveira e pausa maravilhosa. Um mergulho na piscina, uma Superbock para abrir o apetite e um almoço em jeito brunch na companhia dos pais do Carlos, que pertencem à categoria das pessoas mais simpáticas que conheci nos últimos anos. No final do almoço o grupo dispersou. As senhoras foram ver o rio que passava ali ao lado, os senhores fazer não sei o quê e eu fui dormir para a sombra, a única coisa bem feita que fiz em toda a viagem.
14h30
‘Velho Lau, está no ir’.
‘Vamos’.
15h30
‘Velho Lau, está no ir’.
‘Vamos’.
16h00
‘Velho Lau, está no ir, sabes onde está o resto da malta?’.
‘Vamos. Não.’
16h15
Velho Lau, está no ir. A sério.
Zingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzing
A segunda parte do dia começou com um aperitivo para o que vinha a seguir. Fomos pela estrada que já tínhamos feito em Âncora e Caminha e que é basicamente o que havia antes da N13. A dada altura perdemo-nos e metemos pelo meio do mato, onde pedalamos cerca de um quilómetro até encontrar a ciclovia marginal que vai até Valença, de onde passaríamos para Tui e para o Caminho propriamente dito. Antes disso ainda tínhamos o primeiro grande prémio da montanha, com uma subida daquelas que se faz a insultar a mãezinha dos outros equanto se empurra a bina à mão.
Em Tui não há história, tirando o facto de ser a partir daqui que o Caminho passa a ser feito maioritariamente por caminhos.
A cerca de dois quilómetros de Porriño, tive mais um momento Bettini. Quando esperávamos pelo grupo mais lento, decidi ir buscar água. ‘É já ali à frente’, gritei.
Pedalo cerca de um quilómetro e começo a ouvir uma tecnada valente. Tecnicamente devia ser outro estilo de música e não tecno, mas um tstumtstumtstumtstum no meio do monte é sempre uma tecnada.
A música vinha de um hostal, com ar de ter parado no tempo há uns anos atrás, o que fazia com que o hit discotequeiro que se ouvia estivesse até razoavelmente enquadrado.
Estiámos cerriádos.
Disse um de dois velhotes que eu não tinha visto.
Carágo.
Pensei eu.
Se quieres água, busquiala en el coiso.
E voltaram os dois à jardinagem.
Deve ter sido nesta altura que o grupo passou por mim, sem que eu os tivesse visto, o que me fez andar para trás um quilómetro e não encontrar ninguém, obrigando à segunda perseguição do dia.
Passado uns quilómetros e quase no final da reta da zona industrial de Porriño fez-se zingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzingzing. Tinha apanhado o grupo mais atrasado, que vinha como sempre a pedalar em seco, tendo-me juntado aos mais rápidos uns minutos à frente. Vai Bettini!
Nova pausa para reagrupar e lá fomos outra vez, desta feita por uma estrada movimentada. Uns quilómetros à frente esperamos um pouco, quando vimos o grupo mais atrasado chegar desmontado. Foi a última vez que o fizemos, tendo combinado encontro mais tarde no hotel em Redondela.
De volta à estrada e mais alguns quilómetros percorridos, acusei o esforço do episódio da água, indo a pedalar uns 50 metros atrás do grupo da frente. Vendo o Paulo e o Carlos a meterem por um desvio mal sinalizado, achei que os mais atrasados não o iam ver e decidi esperar um pouco. Erro. Esperei uns dez minutos e como ninguém aparecia, decidi ir atrás do grupo da frente. Aqui o ‘vai Bettini!’ passa a ‘vai Pantani’!
Foi o início do pesadelo, com o dia a terminar e o sol já baixo. Foram vários quilómetros sempre a subir até ao topo, com partes tipo parede e sem qualquer zona plana ou a descer. Mais ou menos a três quartos da subida vejo o Paulo a empurrar a burra à mão e mais à fente o Carlos.
Aqui faz-se uma pausa na Crónica do Caminho.
1992. Ilha dos Monges, Golfo do Morbihan, Bretanha. Um rapaz numa velha Peugeot* sem mudanças sobe um monte no meio da ilha, em grande esforço. Ao lado vai o seu irmão, logo seguido do pai. Mais atrás seguem a mãe e a irmã.
Está um calor de morte e o rapaz começa a ter delírios suicidas. Quando está quase no topo, vê o paraíso. ‘Morri’, pensa. No topo da subida, um homem vestido com umas roupas impecavelmente frescas, debaixo de um grande guarda-sol também impecavelmente fresco, está a vender coca-colas estupidamente geladas. O melhor negócio do Mundo de 1992.
No momento em que o rapaz rasga um sorriso, o seu pai passa por ele a razar, vence o cume e começa a descer a montanha desenfreado. Atrás dele passa o irmão…. PAI!!!!!, depois a irmã, desesperada… PAI!!!!, logo seguida da mãe…. ZÉÉÉÉ!!!!!
O rapaz não sabe o que se passa. Depois percebe. O pai é o único com dinheiro no bolso. O rapaz encosta a bicicleta e deixa-se morrer.
Voltando ao martírio xacobeo, o grupo da frente está novamente unido. A fuga não teve sucesso e quando pensamos que a subida tinha acabado, já que finalmente o caminho tinha ficado mais ou menos plano, eis que temos que atacar nova subida. A pior de todas.
Chegados ao topo, encontramos o melhor negócio do Mundo em 2011 e, quanto mais não seja pela altitude, a coisa mais próxima do Paraíso que se pode encontrar em terra firme: uma máquina de Vending carregada de Gatorade, um toldo e três cadeiras.
Sentado na cadeira a beber o néctar azul, Pantani pensou num rapaz semi-morto num monte bretão. Para a próxima, em vez de sonhar com cadeiras e Gatorade, vai-se lembrar de sonhar com cadeiras, Gatorade e mais isto.
Longos minutos depois, alguns dos melhores da sua vida, os três artistas iniciam a descida. Já é noite cerrada e há que vestir roupas quentes. O Carlos é o único com uma luz que dá para ver alguma coisa, por isso vai à frente. Tanto o Paulo como eu, ciclistas urbanos empedernidos, não nos deixamos levar na cantiga dos vendedores de bicicletas e por isso só temos a inútil luzinha pisca-pisca.
Vai Paganini!
Grita o Carlos ao ser ultrapassado quilómetros mais à frente, altura em que chegamos à via rápida de acesso a Redondela e com as Rias ao lado, onde me lanço estrada abaixo em prancha com o Paulo, que tal como eu leva a bina carregada. A última vez que tive coragem de olhar para o conta-quilómetros já tínhamos passado bem dos cinquenta.
Mais telefonema, menos telefonema, lá demos com o Hotel, eram quase onze da noite. Fomos directos para a mesa, onde 10 minutos mais tarde se juntou o grupo atrasado.
Aqui o Velho Lau não come carne e, no meio dos chulétons dos outros, acabei por empurrar uma empanada de atum com uma Mahou, manifestamente pouco para quem ia, poucas horas depois, atacar mais oitenta quilómetros de Caminho.
__________________
* provavelmente não era uma Peugeot.



Fantástico Mike. Logo pela manhãzinha esta literatura soube que nem ginjas gatorade para atacar o dia em força. Vai Paganini… Bettini… Pantani… Chippolini… olha, já marchava uma mini!
Mais um divinal relato da Vuelta ao Minho e Santiago!! Dá-lhe Paganini!
acabo de vir de uns dias de férias em que pela primeira vez levei a bicicleta,no concelho de tábua, para onde tive de pedalar desde o carregal do sal, uns 10km em estradas florestais, por entre montes… com a bicicleta artilhada ainda com mais um saco especial em forma de pirâmide que eu própria fiz, para prender no guiador e no quadro.
Pingback: A Grande Crónica do Caminho – Tomo 3, de Redondela a Santiago (e depois Vigo e Porto) « Um pé no Porto e outro no pedal