A Adega do Ciclista podia ser aqui

O Miro estava fechado.

Ontem, depois de mais um dia da rentrée intenso lá no escritório, pedalei calmamente até à Rua da Vilarinha com o objectivo de testar os serviços do Miro, mecânico e museu de bicicletas recomendado pelo Hernâni da bicicleta musical.

Lembro-me vagamente de ele me ter dito, durante a mini-entrevista da semana passada, que a oficina só abria durante parte do dia e não sei porquê, deduzi que essa parte era a tarde. Quer dizer, se calhar fui sugestionado pelo horário sui generis do Mr. Barbosa da Capas e Peneda, que só abre o tasco durante a tarde e funciona melhor quando o cliente está a assistir ao trabalho (é esse o truque).

Não é que estivesse interessado em mudar de mecânico, mas que diabo, a Vilarinha sempre foi o quintal lá de casa.

A Vilarinha ontem.

Bem, passava qualquer coisa das 18h30 e fui andando pela rua acima e abaixo, até que lá descobri o sítio. Para quem estiver interessado, é a última casa, no sentido Jornal de Notícias – Fonte da Moura, mesmo antes dos grandes neons da oficina de automóveis com a qual concorre pelo espaço visual da potencial freguesia.

Chegado lá, pimba, fechadíssimo. Perguntei na mercearia ao lado e a resposta que tive foi a de que o senhor só estava da parte da manhã. Um anti-Barbosa, portantos.

Da parte da manhã. Pensei logo que, a coisa para render, teria que ser uma manhã das grandes, para aí do tamanho das tardes do Barbosa (fica até à noitinha), o que queria dizer que, à moda antiga, o estaminé estaria de portas abertas por volta das oito horas. E por isso eram oito e meia quando passei por lá hoje, na esperança de comprar umas coisas para a Tai.

Nada. Fermée. Talvez um dia destes tire férias para arranjar o bicho.

Voltando novamente um dia atrás, andava eu ontem acima e abaixo pela Vilarinha e um pingo de nostalgia foi-se entranhando aqui no Velho Lau. E entranhou-se tanto, que não resisti a entrar no Teixeira, barbeiro clássico lá da rua, onde não metia a sapatilha ia para mais de quinze anos, pelas minhas contas dezassete.

Voltando dezassete anos atrás.

Aldoar (mais uma vez), dantes, tinha dois tipos de homem. Os que moravam a sul do paralelo imaginário que divide a Igreja Nova em duas metades e que cortavam o cabelo no Teixeira, e os outros, da parte norte, que cortavam o cabelo no Adérito. Eu, que vivi bem enraizado na parte sul durante os anos oitenta (eram um puto e só saía dali para ir à escola) e menos enraízado na parte norte, já na fronteira com Ramalde, durante os anos noventa (era um puto e raramente andava perto de casa) era da equipa do Teixeira, tendo-me mantido fiel mesmo depois de ter mudado para a parte setentrional.

Outras vidas, outros cortes de cabelo e o Teixeira deixou de me ver. A culpa até foi dele, porque fazia sempre questão de me embaraçar em frente à clientela, ao contar o episódio que deixou a minha mãe de cabelos em pé e a mim sem cabelos nenhuns (o quer dizer um bocado mais do que tenho agora).

Voltando mais sete anos atrás para além dos dezassete, chegamos a 1987, tinha eu 11 anitos, e o episódio foi assim.

Pedro!

 Sou eu, o Miguel Pedro.

Temos que cortar o cabelo à pente 4!

Era o Mendes, chefe da rua e um par de anos mais velho que eu. Ostentava uma cabeleira impecavelmente preta e reluzente.

Pente 4? O que é isso?

O Mendes deu uma explicação meio atabalhoada, que indiciava que não fazia a menor ideia do que estava a propôr.

Iludido pela espectacularidade técnica do nome, lá fui eu ao Teixeira mais o Mendes, cortar à pente 4. Fui eu primeiro, resultando num final de choradeira depois da rapadela e numas boas gargalhadas do Sr. Teixeira à pala dos pedidos estranhos e impossíveis que lhe fiz após o desastre (não os vou contar aqui). O Mendes acabou mal disposto e disse que afinal já não queria cortar o cabelo.

No dia seguinte, escola. Escola preparatória de Aldoar, um dos sítios mais modafóques para se estudar em todo o Porto (podem conferir o aspecto do principal acesso aqui). O então Pequeno Lau vestiu uma camisa à pescador com grandes quadrados pretos e amarelos, umas calças desbotadas de lixívia e as Sanjo do costume e foi encarar a colegagem.

Perante o espanto geral (o bétinho tem piolhos, ou está louco?), foram-se dando explicações aqui e ali. Para alegria (e alívio) aqui do velhote, uma semana depois, o penteado fazia moda entre todo o guna que se prezasse. Deixei de ter problemas na escola para todo o sempre, o que foi durante mais um ano.

Gostava eu de ter tanta influência com o 1PNP como tive com o meu pente 4.

Vinte e quatro anos à frente.

Estava então ontem eu sentado na cadeira do Sr. Teixeira com ele a olhar para mim com aquela cara de conheço este tipo e não estou a ver de onde, quando me (re)apresentei. Foi dos melhores cortes de cabelo da minha vida, com direito a boa conversa sem meter futebol ou o Passos Coelho. No final da coisa, depois de uma borrifadela de um pó que já existia em 87 e que nunca soube o que era, já tinha um barbeiro novo outra vez e sabia que o Mendes tinha casado e ido viver para Ermesinde (a confirmar).

Pente 3, vinte e quatro anos depois do pente 4.

Estou outra vez em Aldoar há pouco mais de um ano. Sou casado e pai de filhos e um tipo bastante ocupado, com um emprego exigente a tempo inteiro e vários projectos (como o 1PNP) que me roubam horas ao sono. Estivesse eu de carro e nunca tinha andado a redescobrir a Vilarinha, como outros recantos e pequenos comércios que vou encontrando nas minhas deslocações diárias. Provavelmente tratava de tudo no Norte Shopping ou ao lado do escritório.

Agora, que estou outra vez a viver muito perto do paralelo imaginário que corta a Igreja Nova ao meio, pendo claramente para a parte sul, onde andam as minhas memórias mais simpáticas e onde vou lentamente restabelecendo as minhas rotinas.

A Adega do Ciclista podia muito bem ser aqui.

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PS: na antiga Preparatória de Aldoar (Leonardo de Coimbra pai ou filho, não sei), assistiu-se a um dos mais espectaculares episódios com bicicletas e motorizadas cinquenta, quando o Pidé, rei da gunada, deu festival de bmx-cross ao fugir, pelas bouças ao lado da escola, de dois polícias montados naquelas sardinhas barulhentas.

PS2: a fotografia foi assumidamente inspirada no melhor vídeo que existe de um gajo de Aldoar a cortar o cabelo. É este e o actor é um vizinho, que por acaso é um mago da Cicloficina. É no… Adérito.

A Adega na Time Out Porto

O Velho Lau teve direito a uma página inteira da última Time Out Porto. Quer dizer, teve direito a uma página inteira, menos a um bocadinho lá em baixo onde aparece o Roberto Leal, o que dá aquele toque TV Guia que a freguesia da Adega do Ciclista tanto aprecia.

O artigo versa (pimba) fundamentalmente sobre o projecto dos mapas e as ideias que aqui vou defendendo. Para lerem podem clicar em cima da imagem aqui ao lado, ou então comprar a revista (o que é obviamente mais recomendado).

E pronto. Resta agradecer à Mariana Duarte pelo texto que ficou tipo ‘melhor era impossível’, ao Filipe Paiva pelas excelentes fotografias tiradas em situações de quase-morte do fotógrafo e que sairam tipo ‘não se vê de tão pequeninas’ e à edição da revista pelo brinde Roberto Leal.

Mapas e coisas

Nos últimos dias o 1PNP tem merecido algum destaque na imprensa, o que é bom sinal.

Por isso, quem chega à Adega do Ciclista pela primeira vez e com curiosidade sobre o projecto dos mapas, é favor dirigir-se à sala das traseiras onde o pessoal está reunido à volta da mesa a trabalhar no assunto.

Trocado por miúdos, é favor ver este post e a discussão em curso nos respectivos comentários.

E se tiveres algum tempo, podes sempre contribuir enviando o teu testemunho e percurso habitual.

Testemunhos a Pedal XXXI

O Luís entrou calmamente na Adega do Ciclista e veio sentar-se ao balcão para relatar a sua ainda curta experiência a pedal na Imbicta.

Chega assim o trigésimo primeiro testemunho, que curiosamente é dos primeiros a vir do lado de lá da cidade, a zona oriental, onde ainda não tínhamos percursos mapeados. O que o Velho Lau se queixava da pouca freguesia a vir daqueles lados!

Como qualquer outro morador do Porto achava que a cidade não era suficientemente plana para o uso diário da bicicleta. No entanto ao “tropeçar” no blogue 1PNP a minha certeza quanto à inviabilidade do uso da bicicleta na cidade começou a ser povoada por algumas dúvidas.

Demorei ainda algumas semanas a vencer a preguiça e o comodismo, nas quais em horários não laborais fui experimentando percursos casa – trabalho, sim, porque isto de andar de bicicleta no Porto até é possivel, se calcularmos devidamente a viagem.

Neste momento já passaram duas semanas desde que abandonei o metro e estou bastante satisfeito com a mudança. Diáriamente faço oito quilómetros no percurso ida e volta para o trabalho, sendo que ao contrário do esperado, demoro às vezes tanto ou menos tempo do que normalmente faria.

Eventualmente com a chegada da chuva terei que recorrer algumas vezes ao abrigo do metro, mas estou certo que dificilmente vou deixar a bicicleta como meio de transporte.

O percurso do Luís esta ali ao lado, na barra da direita.

Paradoxos invictos

Apesar de a maioria do Porto ser até bastante ciclável, há partes da cidade em que andar de bicicleta não é assim muito muito fácil. São aquelas  nas quais toda a gente pensa antes de dizer “impossível”, mas onde poucos passam no seu dia-a-dia.

Curiosamente, é nessas ruas em que se pode ver e sentir melhor o pulsar da querida Imbicta.

Pessoas, putos e bolas, muitas bolas.

Sugestão do Pedro Candeias.

Crónicas do Primeiro Mundo LXIV

Any city dweller is well acquainted with the sight of abandoned bicycles that stay locked to poles for months, rusting away and slowly being stripped of all of their parts. In Toronto, Caroline Macfarlane and Vanessa Nicholas decided to do something about it. The artists paint bikes in cheerful neon colors, often adding planters to their baskets, and place them around the city.

Good.

Crónicas do Primeiro Mundo LXIII

No Porto o “Passe Social +” vai custar 21,30 euros

O novo título de transportes, o “Passe Social +”, para quem receba até 545 euros, vai entrar em vigor a partir de 1 de Setembro no âmbito do Programa de Emergência Social, anunciou esta segunda-feira o Ministério da Economia e do Emprego.

Um título intermodal deste novo modelo para o Porto, na área Z2, vai custar 21,30 euros, sendo que o normal vale 28,40 euros – em Lisboa, o novo passe social vai custar 24,20 euros, enquanto o preço normal é de 33,85 euros.

Porto24

A Adega do Ciclista podia ser isto

Pasteleira pendurada na Galeria do Desassossego. Mais uma fotografia desgraçada tirada com o videofone.

Afazeres profissionais têm-me levado a passar todos os meses um par de dias em Beja, porventura uma cidade com um dos centros urbanos menos cicláveis do País. Trata-se basicamente de um monte, muito quente no Verão, onde mesmo assim se vêem alguns ciclistas, normalmente velhotes em belas pasteleiras.

Talvez em homenagem a estas bicicletas das alturas, a Galeria do Desassossego, poiso de eleição bem lá no cimo da cidade, tem uma pendurada no tecto.

É isso. Ar tascoso, boa música (muito boa até), bom ambiente e uma bina no tecto. A Adega do Ciclista podia ser isto.

Motivar as Massas LXXVII

No início da semana que passou interromperam-se as férias para tratar de assuntos relacionados com bicicletas (clop!). Uma pequena mudança de latitude deu logo direito a mudança de clima e a uma pedalada até à Baixa debaixo da nossa morrinha atlântica.

Não havia que enganar. Estava em casa e em casa iria estar no refúgio familiar ainda mais a Norte, onde a rede de telemóvel não chega (com  jeitinho ainda se consegue qualquer coisa), a Internet também não e Agosto não é tão quente quanto isso.

Foi então assim que nessa manhã vi o Porto, enquanto fazia horas (ou minutos) para uma das reuniões do dia. Eram quase dez horas e os carros ainda andavam com os faróis acesos.

No regresso ao final da manhã, por Cedofeita, deu para comprovar a teoria que a bicicleta é o meio de transporte mais social que existe, andando suficientemente rápido para nos cruzarmos com muitas pessoas num curto espaço de tempo e suficientemente devagar para as reconhecer.

E se as pessoas vierem todas de bicicleta as probabilidades explodem. Por isso, cinco minutos foram suficientes para encontrar o Daniel e logo depois, enquanto nos instalávamos para tomar um café, a Alice, que se juntou a nós para mais uma conversa inesperada.

Motivar as Massas LXXVI

O ciclista com uma só perna, ou a bicicleta como meio de transporte para todos. Este deve ser o segundo ciclista urbano mais famoso do Porto (o primeiro está aqui).

Fotografia desgraçada tirada com o videofone – quem conseguir uma melhor, faça o favor de me enviar. Já agora, se tiverem fotografias curiosas tiradas no Porto, enviem que a malta publica com os devidos créditos.

Pedalcast I – Pedalar na Baixa

Tal como prometido aqui, o 1PNP apresenta o primeiro podcast de uma colecção que se espera vir a ser grande, ou então nem por isso.

O primeiro Pedalcast é um vídeo um bocado rasca onde podem ouvir (e ver) uma das conversas do trio de ciclistas urbanos que integrou a equipa de aventureiros que foi a pedalar até Santiago: a Alexandra, o Paulo e aqui o Velho Lau.

A coisa andou à volta da experiência a pedalar na Baixa e foi gravada no urbano da CP a caminho de Viana.

Testemunhos a Pedal XXX

O Velho Lau tinha acabado de chegar de férias, o que se nota pela publicação em massa de coisas pendentes, quando viu à sua frente uma bicicleta familiar, que os mais atentos ao andamento da Adega do Ciclista certamente já identificaram de um post recente.

O Velho Lau começa a ficar esperto para estas coisas e não quis deixar escapar a oportunidade de ter este testemunho. Por isso arriscou a ultrapassagem, encostou o senhor, sacou do bloco de notas e do videofone e pediu-lhe uns minutos do seu tempo.

Só nesta altura se apercebeu do som que se ouvia e viu que estava à frente do ciclista urbano mais famoso do Porto, alguém com que todos os portuenses já se cruzaram, ou vão-se cruzar. Era o condutor da Bicicleta Musical.

Hernâni Moreira, de 75 anos e aspecto de 60, anda de bicicleta pelo Porto desde que se lembra. Eu lembro-me de o ver a passar no início dos anos 90 na Rua do Lidador, sempre sorridente e com uma cantiga nova todos os dias.

O quiver do Hernâni é constituído pela esmaltina vermelha dobrável (a bicicleta musical), uma bicla eléctrica e uma scooter, também ela musical, que utiliza para deslocações mais longas.

Na nossa conversa explicou-me o seu som-sistema, instalação hermética em contentores de plástico.

Na frente há um mini-hifi e um rádio leitor de cassetes, com relógio. O contentor é cortado em cima do rádio para dar acesso aos comandos. Atrás, na outra caixa, vai a bateria que alimenta o som.

A bicicleta não tem duas colunas, mas quatro. Duas ao lado do guiador, duas no porta-couves, todas elas protegidas (por isso não as vemos nas fotos).

O mini-hifi tem ainda uma entrada para o micro, que amplifica as cantorias com que nos brinda em movimento e os concertos de concertina e acordeão que dá quando se lembra de trazer os instrumentos.

Como tem todo o tempo do Mundo, normalmente anda pela cidade toda, mas tem os seus locais preferidos como Cedofeita, o Parque da Cidade ou as palmeiras no Passeio Alegre.

O Hernâni diz que andar de carro é uma asneira e pensa nisso quando os ultrapassa nas intermináveis bichas. Quando tem que ir para longe, como Ermesinde, ou a Maia, pega na scooter musical.

O veterano diz que agora vê muitos ciclistas, mas que as coisas ainda estão longe de serem fáceis.

Faltam sobretudo sítios para parar as bicicletas. Devia-se criar nos bairros lugares seguros tanto para elas, como para as motorizadas, já que são zonas com muitos ciclistas e motociclistas e quando se fazem coisas é só para os carros, só para os carros, só para os carros.

No final da conversa, antes de trocarmos contactos, ainda houve tempo para uma conversa sobre biclas clássicas e para uma recomendação:

Na Vilarinha há um mecânico espectacultar, dedicado a estas coisas e com uma colecção espectacular, que vale a pena ver.

Na segunda-feira passo por lá.

Crónicas do Primeiro Mundo LX

Mistério do fim das Ligações Internacionais do Porto

A tele-novela do serviço ferroviário Porto-Vigo está a pouco mais de um mês de um inaceitável desfecho, com o fim da comparticipação da Renfe do troço a partir de Tui a ocorrer no dia 30 de Setembro, fazendo desta a data em que o Porto, ao fim de quase 100 anos e a contra-ciclo com o resto da Europa, perde a sua última ligação ferroviária internacional.

Foi neste contexto que a Associação de Utentes dos Comboios de Portugal organizou uma sessão pública de esclarecimento em Viana do Castelo no passado dia 29 de Julho (com presença da Refer e sem sequer uma resposta da CP Regional e Renfe), em que foram ouvidos representantes políticos e institucionais e apresentadas propostas para a Linha do Minho e para o serviço Porto-Vigo no curto prazo (muitas praticamente sem custos) e para o médio prazo (de cariz mais infra-estrutural). Nesta sequência surge também uma notícia do jornalista Carlos Cipriano no Público, que dá os custos anuais para a ligação Tui-Vigo como estando um pouco acima dos 100.000€ enquanto que a CP afirma que estes sobem até aos 450.000€. Trata-se de uma diferença – não explicada – de quase 350.000€(!).

Associando este novo valor às contas feitas pelo António Alves neste post bastariam na verdade 6 passageiros por viagem para pagar os custos anuais(!) e, se houvesse uma gestão transfronteiriça conjunta como referido aqui, ficaria a cada instituição uma despesa de algo como 28€ por dia, se se insistir que o serviço não poderia perfeitamente ser rentável (não será já rentável em dados períodos?). Isto ignorando também o facto de que o revisor neste trajecto nem sempre está presente. Ninguém sabe de onde vêm ou como são calculados os números oficiais nem as motivações (ou falta delas) que escondem, mas a falta de transparência da CP só contribui para agravar a noção de que não existe qualquer visão estratégica que orienta a sua gestão, orientando-a para a conquista de utentes de forma a colmatar os seus problemas, para não dizer que casos como este se parecem aproximar mais da sabotagem.

Quanto ao potencial desta ligação e da Linha do Minho, basta olhar para esta imagem, em que a Linha surge como um vazio de electrificação e modernização entre duas ligações que dão lucro e/ou prosperam como são o Lisboa-Porto e o Vigo-Corunha e que, unidas de forma coerente, traduziriam melhor a realidade económica e populacional desta região.

Nuno Oliveira, na Baixa do Porto.

Um pé em Oslo e a cabeça no Porto

De Oslo chega-nos o segundo telegrama do Vitor, enviado especial da Gazeta da Adega do Ciclista à Noruega.

Confirma-se, há muitas bicicletas em Oslo, o que não deixa de ser estranho considerando o Inverno que têm por lá. Ou não, porque eles parecem viver o tempo (metereológico) de forma diferente da nossa. Por exemplo, no último dia em que lá estive, quando ia aproveitar para dar uma volta de bicicleta, estava a chover a potes. Claro que abandonei logo essa ideia… não tinha equipamento apropriado nem nada. Escusado será dizer que enquanto ia no eléctrico me cruzei com dois ciclistas que pedalavam como se nada fosse.

É de notar no entanto que Oslo não é propriamente uma cidade sem carros e também não estamos numa cidade de biciletas do tipo Pequim dos anos 80. Há muitas, é certo, e às vezes até parece que as árvores só foram plantadas para servir de suporte às bicicletas, mas, acima de tudo, parece-me mais ser um mix de mobilidade que funciona. Andar a pé, bicicleta, autocarro, eléctrico, metro, comboio e carro.

Também têm um sistema de aluguer de bicicletas tipo Velib, mas pareceu-me menos utilizado que em Paris (comparações pouco precisas claro que eu nao viajo assim tanto e estou a comparar datas e períodos de tempo diferentes). A confirmar-se esta ideia, dever-se-á talvez ao facto de parecer que todo o norueguês tem pelo menos uma bicicleta (mais uma generalização nada cientifica claro).

Não consegui ir a Trondheim para ver o sistema que o Miguel já tinha falado mas ainda vi outras coisas interessantes como alguns pais com os filhos no atrelado:

… um mega atrelado:

… e um carrinho de gelado:

Para além disso vi milhares de carrinhos de bebé… parecia que havia mais do que bicicletas!

Motivar as Massas LXXV

O segundo momento pernoléu da semana foi registado pelo Vitor Silva, enviado especial da Gazeta da Adega do Ciclista a Oslo.

O verdadeiro momento pernoléu de Oslo é o da jovem deitada na relva com a bicicleta ao lado.

Tem tudo. O fascínio pelo sol, a apropriação dos espaços verdes e o meio de transporte favorito (digo eu que não fiz nenhum estudo sobre isso).

Ouvido na Sé II

Chapéu de palha, guitarra na mão, ar concentrado, paisagem ao fundo bem definida, dia de calor quase doentio, ar imperturbável, ar livre e puro. Com a cidade toda a ver, num sábado como outro qualquer (ou será que não?). Victor Herrero é espanhol (passou a sua infância em Madrid), mas a sua música combina de tal forma com a paisagem que a cidade do Porto oferece que parece nascido e criado na Sé, provando categoricamente a transversalidade da música, ainda que com aromas, cores e feitios distintos. O cenário parece pintado a óleo, quase surreal; e no entanto a música de Victor Herrero não podia ser mais humana, mais acessível. A sua música, poder-se-ia dizer, é património mundial da humanidade, tal e qual como a paisagem que se apresenta em toda a sua beleza, por carregar elementos que podem ser partilhados por todos. Sem reservas. “Barcarola” é de Victor Herrero mas é para todos.

Bodyspace.

Escrito na Praia

Considerações prévias: não tenho actualizado o 1PNP com a frequência desejada, não pela falta de tempo, porque este é o mesmo que tenho no Porto (basicamente a noite, quando o pessoal cá de casa já dorme), mas pela falta de uma ligação à Internet que se possa chamar de ligação à Internet. Por aqui, um simples googlanço é um acto feito à velocidade com que em 1998 se fazia um altavistanço lá na rede hiperatafulhada da faculdade.

Comecemos, porque o prometido é devido e o Velho Lau cumpre sempre as suas promessas. Como no final deste post prometi contar como tem sido as coisas fora da querida Imbicta, aqui fica a mini-crónica estival, que é para compensar o tamanho exagerado da Grande Crónica do Caminho, cujo último tomo foi postado hoje cedo (tecnicamente já é ontem).

Antes de sair do Porto, pensei em comprar umas grades para levar as biclas da família em cima do carro, investimento que me estava a irritar, em primeiro lugar porque era um investimento num carro (iarc) e em segundo porque era um investimento maior do que o investimento realizado na totalidade das biclas a transportar. Por isso, quando li no pdf que a Laraine e o Russ prepararam para publicitar o seu flat vicentino que havia à nossa disposição two mountain bikes for exploring locally, decidi no momento não carregar nenhuma bicicleta e trazer apenas o Leco para o transporte infantil.

Como somos pessoas relaxadas, relaxamos até ao último dia e apenas decidimos as férias na véspera da partida, o que fez com que as opções em termos de alojamento ficassem limitadas. Por isso, apesar de estarmos bem instalados e em boa companhia, não conseguimos ficar tão perto da praia como desejaríamos, ou seja, à distância de uma pequena caminhada. Ainda assim ficamos perto o suficiente para ouvir o mar à noite com grande intensidade, mas longe das praias onde gostamos de ir, que são por natureza mais isoladas e de acesso complicado. Como a minha maluquice não chega para pedalar várias dezenas de quilómetros por dia, descendo e subindo falésias com um puto de 25 kgs carregado no quadro de um bicicleta com mais de 15 anos, cujas mudanças não são bem mudanças, tenho utilizado o carro mais do que esperava. Ainda assim, para as deslocações aqui perto, tenho utilizado a bicicleta com bastante regularidade.

Foi engraçado constatar que, para além de ter tornado um condutor de Domingo (literalmente), com a bicicleta me tornei muito, mas muito mais cauteloso, transpondo para o carro o estilo de condução defensiva que  naturalmente tenho a pedalar. Outra coisa engraçada foi ter-me tornado num agente de traffic calming ambulante, já que aliada à condução defensiva veio uma preocupação com o consumo (coisa irritante ter que meter gasolina), que me faz guiar com um olho na estrada e o outro no indicador do consumo médio.

As bicicletas mutantes:

As bicicletas que nos calharam na rifa são típicas da Costa Vicentina, ou seja, têm ferrugem em todas as peças que podem enferrujar e uma camada de verdete nas outras. Isto dá uma certa patine aos bichos e um ar de residente estival da velha guarda a quem os cavalga de calções de banho. São as binas mutantes e há-as para todos os gostos: bmx guiadas por putos freestylers, outras bmx guiadas por outros putos de óculos e encasacados até ao pescoço apesar do calor, velhotes com couves no porta-couves, velhotes com o expresso no porta-expressos, senhoras de fato-de-treino.

Quanto às nossas binas mutantes, são duas BTT Continentex com uma folga gigante na corrente, que fazem o acto de pedalar sem que ela salte da cassete um bailado de alta precisão e a mudança de velocidades um jogo arriscado.

O Leco montado na bicicleta mutante. O cadeado já lá estava: eu utilizo os dois que trouxe comigo do Porto e não são destes de brincar.

Os capacetes:

Ainda não vi ninguém de capacete, apesar de ver mais biclas aqui do que no centro do Porto. O que é curioso, é que a maioria destes anjinhos, quando anda na cidade, se é que anda, vai por cima do passeio com o casco bem enterrado na cabeça.

Uma pessoa com a mínima experiência percebe que pedalar por aqui, onde não há marcações na estrada e as pessoas conduzem como javalis, é um acto muito mais insano do que descer a Avenida da Boavista com o trânsito lento da hora de ponta.

As estruturas

Numa terra onde o alcatrão com menos de 20 anos acaba invariavelmente à porta de um vereador da Câmara, não se pode esperar grandes infra-estruturas para bicicletas. De qualquer forma fica o registo da solução vicentina para o aparcamento, isto apenas para alimentar ainda mais a polémica do século.

Madeira, ou o estacionamento seguro é aquele que é longe dos ladrões.

Muito brevemente estarei no Porto, ou noutro sítio mais civilizado e o ritmo de publicação da Adega vai voltar ao normal.

Ouvido na Praia

Só apanhei a conversa a meio.

Dois jovens acompanhados de uma jovem, todos aparentando estar no lado errado dos quarenta. Um deles com ar boho-idon’tcare-urban-coiso, com uns óculos de massa à maneira,  tem encostada à esplanada uma daquelas Rock-rider da Decathlon com pneus de lavrar terra e holofote para ir aos gambuzinos novinha em folha. O outro, com um ar menos boho-idon’tcare-urban-coiso, mas com uma coisa chamada “Espacio Público como Ideologia” de Manuel Delgado Ruiz na mão.

Com um forte sotaque lisboeta, um diz, meio impressionado, meio apanhadinho:

Ela anda pela Baixa numa daquelas de roda fininha. Pega na bicicleta e carrega-a ao ombro até ao quarto andar.

O outro, num tom de quem está quase a começar:

Ela é rica. É uma questão de atitude, de começar.