Ontem, depois de mais um dia da rentrée intenso lá no escritório, pedalei calmamente até à Rua da Vilarinha com o objectivo de testar os serviços do Miro, mecânico e museu de bicicletas recomendado pelo Hernâni da bicicleta musical.
Lembro-me vagamente de ele me ter dito, durante a mini-entrevista da semana passada, que a oficina só abria durante parte do dia e não sei porquê, deduzi que essa parte era a tarde. Quer dizer, se calhar fui sugestionado pelo horário sui generis do Mr. Barbosa da Capas e Peneda, que só abre o tasco durante a tarde e funciona melhor quando o cliente está a assistir ao trabalho (é esse o truque).
Não é que estivesse interessado em mudar de mecânico, mas que diabo, a Vilarinha sempre foi o quintal lá de casa.
Bem, passava qualquer coisa das 18h30 e fui andando pela rua acima e abaixo, até que lá descobri o sítio. Para quem estiver interessado, é a última casa, no sentido Jornal de Notícias – Fonte da Moura, mesmo antes dos grandes neons da oficina de automóveis com a qual concorre pelo espaço visual da potencial freguesia.
Chegado lá, pimba, fechadíssimo. Perguntei na mercearia ao lado e a resposta que tive foi a de que o senhor só estava da parte da manhã. Um anti-Barbosa, portantos.
Da parte da manhã. Pensei logo que, a coisa para render, teria que ser uma manhã das grandes, para aí do tamanho das tardes do Barbosa (fica até à noitinha), o que queria dizer que, à moda antiga, o estaminé estaria de portas abertas por volta das oito horas. E por isso eram oito e meia quando passei por lá hoje, na esperança de comprar umas coisas para a Tai.
Nada. Fermée. Talvez um dia destes tire férias para arranjar o bicho.
Voltando novamente um dia atrás, andava eu ontem acima e abaixo pela Vilarinha e um pingo de nostalgia foi-se entranhando aqui no Velho Lau. E entranhou-se tanto, que não resisti a entrar no Teixeira, barbeiro clássico lá da rua, onde não metia a sapatilha ia para mais de quinze anos, pelas minhas contas dezassete.
Voltando dezassete anos atrás.
Aldoar (mais uma vez), dantes, tinha dois tipos de homem. Os que moravam a sul do paralelo imaginário que divide a Igreja Nova em duas metades e que cortavam o cabelo no Teixeira, e os outros, da parte norte, que cortavam o cabelo no Adérito. Eu, que vivi bem enraizado na parte sul durante os anos oitenta (eram um puto e só saía dali para ir à escola) e menos enraízado na parte norte, já na fronteira com Ramalde, durante os anos noventa (era um puto e raramente andava perto de casa) era da equipa do Teixeira, tendo-me mantido fiel mesmo depois de ter mudado para a parte setentrional.
Outras vidas, outros cortes de cabelo e o Teixeira deixou de me ver. A culpa até foi dele, porque fazia sempre questão de me embaraçar em frente à clientela, ao contar o episódio que deixou a minha mãe de cabelos em pé e a mim sem cabelos nenhuns (o quer dizer um bocado mais do que tenho agora).
Voltando mais sete anos atrás para além dos dezassete, chegamos a 1987, tinha eu 11 anitos, e o episódio foi assim.
Pedro!
Sou eu, o Miguel Pedro.
Temos que cortar o cabelo à pente 4!
Era o Mendes, chefe da rua e um par de anos mais velho que eu. Ostentava uma cabeleira impecavelmente preta e reluzente.
Pente 4? O que é isso?
O Mendes deu uma explicação meio atabalhoada, que indiciava que não fazia a menor ideia do que estava a propôr.
Iludido pela espectacularidade técnica do nome, lá fui eu ao Teixeira mais o Mendes, cortar à pente 4. Fui eu primeiro, resultando num final de choradeira depois da rapadela e numas boas gargalhadas do Sr. Teixeira à pala dos pedidos estranhos e impossíveis que lhe fiz após o desastre (não os vou contar aqui). O Mendes acabou mal disposto e disse que afinal já não queria cortar o cabelo.
No dia seguinte, escola. Escola preparatória de Aldoar, um dos sítios mais modafóques para se estudar em todo o Porto (podem conferir o aspecto do principal acesso aqui). O então Pequeno Lau vestiu uma camisa à pescador com grandes quadrados pretos e amarelos, umas calças desbotadas de lixívia e as Sanjo do costume e foi encarar a colegagem.
Perante o espanto geral (o bétinho tem piolhos, ou está louco?), foram-se dando explicações aqui e ali. Para alegria (e alívio) aqui do velhote, uma semana depois, o penteado fazia moda entre todo o guna que se prezasse. Deixei de ter problemas na escola para todo o sempre, o que foi durante mais um ano.
Gostava eu de ter tanta influência com o 1PNP como tive com o meu pente 4.
Vinte e quatro anos à frente.
Estava então ontem eu sentado na cadeira do Sr. Teixeira com ele a olhar para mim com aquela cara de conheço este tipo e não estou a ver de onde, quando me (re)apresentei. Foi dos melhores cortes de cabelo da minha vida, com direito a boa conversa sem meter futebol ou o Passos Coelho. No final da coisa, depois de uma borrifadela de um pó que já existia em 87 e que nunca soube o que era, já tinha um barbeiro novo outra vez e sabia que o Mendes tinha casado e ido viver para Ermesinde (a confirmar).
Estou outra vez em Aldoar há pouco mais de um ano. Sou casado e pai de filhos e um tipo bastante ocupado, com um emprego exigente a tempo inteiro e vários projectos (como o 1PNP) que me roubam horas ao sono. Estivesse eu de carro e nunca tinha andado a redescobrir a Vilarinha, como outros recantos e pequenos comércios que vou encontrando nas minhas deslocações diárias. Provavelmente tratava de tudo no Norte Shopping ou ao lado do escritório.
Agora, que estou outra vez a viver muito perto do paralelo imaginário que corta a Igreja Nova ao meio, pendo claramente para a parte sul, onde andam as minhas memórias mais simpáticas e onde vou lentamente restabelecendo as minhas rotinas.
A Adega do Ciclista podia muito bem ser aqui.
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PS: na antiga Preparatória de Aldoar (Leonardo de Coimbra pai ou filho, não sei), assistiu-se a um dos mais espectaculares episódios com bicicletas e motorizadas cinquenta, quando o Pidé, rei da gunada, deu festival de bmx-cross ao fugir, pelas bouças ao lado da escola, de dois polícias montados naquelas sardinhas barulhentas.
PS2: a fotografia foi assumidamente inspirada no melhor vídeo que existe de um gajo de Aldoar a cortar o cabelo. É este e o actor é um vizinho, que por acaso é um mago da Cicloficina. É no… Adérito.
































