Pesadelo a pedal…
… ou como se fica a dever um jantar a alguém a quem já se devia antes três finos.
Depois de uma semana a conduzir ou a ser conduzido IP2 a cima e a baixo, profissão ao que obrigas, tirei um dia de férias para múltiplos afazeres pessoais. Claro que estava mortinho por meter os dedos na Tai, que estava na garagem à espera desde Domingo.
A tarde começou no dentista, onde fui tirar os pontos que sobraram de uma operação mais ou menos complicada feita na semana passada e que me deixou com a cara num oito durante meia dúzia de dias. O António, dentista dedicado, contou-me como nesse dia se sentiu mal e foi para o ginásio depois de me ver a sair de bicla da intervenção.
O pesadelo que baptiza este post, começou quando estava a chegar ao edifício do consultório e o Pedro Candeias me ésseémeéssiou o seguinte:
Acabei de te ver ao pé do Hospital Militar.Vou comprar um telemóvel na Rotunda da Boavista. Se quiseres tomamos um café.
Concordei logo, azar o dele. Ia demorar pouco com o António e como sabia que ambos tínhamos mais tarde um compromisso no mesmo local, devolvi o desafio, com um upgrade: ir comigo aos quintos do inferno buscar um aspirador que estava a compôr depois da avaria mais estúpida da história dos pequenos domésticos. Podíamos tomar café na estação de Metro, já que as duas horas que tínhamos disponíveis obrigavam à sua utilização.
Chegados à estação da Casa da Música, depois do café, foi com desânimo que vimos que a linha laranja, a única para os quintos, só tinha serviço daí a 20 minutos, o que tornava a coisa apertada.
Solução? Ir até Campanhã e procurar o caminho a partir daí. O Pedro disse logo que era fácil, porque tinha um GPS espectacular.
Erro nº 1:
- Não confies no GPS de um telemóvel, especialmente se este for do Pedro Candeias.
Com a brincadeira do GPS perdemos mais de uma hora, já que a Paula, que é para não chamar outra coisa começada pela mesma letra à voz que nos guiava a partir do bolso do Pedro, nos mandou, perdida de bêbada, acima e abaixo em ruas de paralelo. Sim, a Cidade só é ciclável se conheceres os caminhos certos e estes não forem lá para o lado dos quintos.
Ao fim de uma hora e de completa meia volta à Itália, e só depois de perguntar o caminho a uns tipos dos SMAS que andavam a fazer cortes lá perto do Bairro do Falcão, lá chegámos ao moquifo onde o aspirador estava a compôr. Sobrava meia hora para chegar até à FEUP.
Erro nº 2:
- Quando estás de bicla, nunca digas “este saco deve dar”
Pois, o aspirador é um kit anti tudo e pró mais alguma coisa, mas oversized. Nem por sombras cabia na coisa tipo messenger bag que tinha levado cheio de boa vontade. O que por lá se arranjou foi um saco do Pingo Doce, daqueles para levar as compras todas de uma vez, o que implicou pedalar só com uma mão no drop-bar, o que numa bicla de corrida não é coisa fácil.
Resultado:
- Subimos a parede que é a Alameda de Cartes com as biclas à mão até à estação de Contumil. Os polícias que estavam lá em cima quase nos faziam perder ainda mais tempo. Quem conhece a zona, sabe que dois tipos morenos, um deles de camisa preta, a subirem a rua com duas biclas e um electrodoméstico são coisa no mínimo suspeita;
- O Pedro, que conseguia pedalar, ainda andou mais uns quilómetros e largou a bina no parque do Continente, tendo feito o resto do caminho de táxi;
- Eu desisti e meti-me no Metro em Contumil com a Tai mais o aspirador, só parando perto de casa.
Lessons learned:
- Pôr sempre em causa o optimismo do amigo, o tamanho da sua bagagem e a capacidade da montada para a tarefa a que se propõe, antes de empreender viagem complicada;
- Não fazer a coisa depender da tecnologia.
Um recado especial à minha senhora, que volta e meia lê isto: filhinha, um dia quando sair de casa à noite sozinho, já sabes porque é que tenho que pagar um jantar a um gajo.
Trackbacks
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Qundo um gajo se senta numa bicla tem sempre as melhores das aspirações, eheh. Boa aventura.
A vida é azul e branca quado saímos de casa nas fininhas!
Arranja uma Xtracycle e não haverá carga que te surpreenda!
Estive a ver uma long-tail hoje na Douro Bike.. Investimento lá para Setembro!
Epopeia do caraças…! :D Temos de arranjar um porta-couves dianteiro para as de estrada ;)
Não correu tão bem como a nossa em Braga!
Deixo aqui o fim da turbulenta recolha do aspirador:
Depois de atravessar o bairro de contumil (a subir, visto que nesse dia parece que todas as ruas foram feitas a subir) a tentar dar o máximo de velocidade que as pernas ainda permitiam, acabei por deixar a deencha – para quem n-ao sabe é o nome da minha bicicleta – presa ao suporte dos carrinhos de supermercado do parque de estacionamento do Dolce Vita Antas (pareceu-me o lugar mais seguro daquela zona da cidade, visto que tem muito movimento e seguranças a passear por lá) acabei por atravessar o centro comercial a correr para apanhar um taxi. Quando expliquei ao senhor taxista que estava atrasado este perguntou-me, calmamente – da mesma forma que conduzia – se eu queria que ele não respeitasse os vermelhos. Disse-lhe que não, e essa foi a melhor decisão do dia, visto que mesmo sem passar vermelhos e com a condução mais lenta da história dos taxistas do Porto, ia tendo um acidente quando já estavamos perto do destino. Acabei por chegar ao auditório a transpirar profusamente e a cheirar a pónei. Em algumas situações, é uma vantagem enorme morar em Portugal, assim, apesar de chegar dez minutos atrasado ainda tive que esperar mais quinze minutos para fazer o meu papel e falar para o auditório.
Quando fui buscar a bicla, desta vez num mix metro-pés, acabei por ter um momento de iluminação e perceber o quanto me habituei a andar de bicla para todo o lado, olhava para o fundo das ruas que ia percorrendo a pé e pensava “a esta velocidade nunca mais lá chego”.
A bicla estava no mesmo lugar onde a deixei o que me diz que aquele é de facto um lugar seguro para a deixar. Acabei por subir (foi a minha última escalada do dia) a Alameda dos Campeões e fazer o resto do percurso até casa. E assim se vai buscar um aspirador a contumil…de bicla.
Algumas lições:
- Planear é fundamental: Quando cheguei a casa e meti o percurso no mapa, percebi que todas as voltas que demos podiam ter sido evitadas. Do Dragão ao ponto de destino não eram mais de 2km, e sempre a descer. Claro que tudo o que desce, sobe, mas seria uma subida mais calma :)
- A Marta do GPS é boa rapariga, mas está formatada para percursos carros/pé. Nunca confiar num gps que só considera estes dois tipos de transporte. Vou enviar um email para o senhor google a pedir para adicionar no google maps a opção “bicicleta” e que esta tenha em atenção o declive da estrada.
- Se vais para os lados do bairro de contumil, não uses uma camisa preta.
- Sempre que te convidarem para ir buscar electrodomésticos de bicicleta….aceita, quem sabe sacas um jantar, no pior dos casos um fino.
Confesso que, já em casa, pensei na tua Deencha amarrada no Continente mais dread da Cidade….
Descobri que o maps.google.com tem a opção bicicleta. O .pt não tem.
é verdade… mas aparentemente não funciona no Porto… ‘too much complicated’ deve ele pensar!
Pedro, e a Marta é Paula, que é para não lhe chamar ganda p…
… alerma.