Testemunhos a Pedal XIX
“De volta para casa vou alternando o percurso. Permite-me viver “outra cidade”, alimentar e desenvolver o comércio local, contrariando os percursos das auto-estradas ou variantes que nos “despejam” num qualquer centro comercial ou hipermercado.”
O João é o décimo nono freguês a deixar bilhete aqui na espelunca e é o segundo a contar como é a vida a pedal do lado de lá do rio.
Na outra margem, há 16 anos atrás, o percurso começava em Gaia e terminava nas piscinas do CDUP. Duas vezes por semana ía pelo tabuleiro superior da Ponte D. Luís, onde encontrava o pior piso do percurso e uma falta de civismo que era um verdadeiro perigo. Seguiram-se quatro anos de pedaladas pela cidade de Aveiro, onde vivi e estudei e umas férias de verão a pedal (eu, a bicicleta e a tenda no interior alentejano).
Depois de um interregno, comprei há dois anos uma dobrável para fazer duas deslocações semanais (Gaia-Carvalhido). Foi fácil concluir que tentar atravessar para o outro lado às 19h00 era uma corrida contra o tempo e que a viagem podia ser mais agradável e desconstraída quando combinada com o metro. A viagem para casa (pelas 21h30) era sempre a pedalar e permitia ver a cidade e as suas alterações de semana para semana.
No metro aprendi a ignorar olhares menos simpáticos, uns “chega para lá” e os fiscais a dizerem que não podia andar de bicicleta em horas de ponta (mesmo que a bicla ocupasse menos espaço que alguns sacos que por lá andavam). Um dos momentos mais engraçados foi uma conversa entre dois senhores: um maravilhado com a bicicleta que ocupava muito pouco espaço e outro que disse “É muito bonita é! Mas se lhe falha a dobradiça…”.
As minhas deslocações são divididas entre bicicleta (em Gaia), carro partilhado ou combinação de comboio e bicicleta (quando vou dar aulas a Aveiro). Tenho semanas em que só pego no carro para ir surfar (outro) ou para deslocações mais específicas. É tudo uma questão de organização, acabamos por simplificar a vida. Estou próximo de me tornar num condutor de fim-de-semana, o que é muito bom!
Actualmente, o meu percurso de casa para o escritório não é muito longo (demoro cerca de 10 a 15 minutos). Tem um início próximo da Câmara de Gaia e termina no Monte da Virgem a cerca de 150 metros da RTP. Como é sempre a subir, defini um percurso onde a inclinação é diluída e onde fujo aos tubos de escape da Avenida da Républica. Contudo, não é possível fugir às obras e constantes alterações de percursos derivadas da construção da estação de metro de Santo Ovídeo. De qualquer modo chegamos ao trabalho com outro ânimo!
De volta para casa vou alternando o percurso. Permite-me viver “outra cidade”, alimentar e desenvolver o comércio local, contrariando os percursos das auto-estradas ou variantes que nos “despejam” num qualquer centro comercial ou hipermercado. Podemos descobrir e usufruir da frutaria que vende kiwis nacionais, de pequeno calibre (fruta mais fruta) a 0,59€/kg e que estão à venda nos hipermercados por 1.49€/kg. São mais pequenos é verdade, mas são de certeza mais saborosos, por isso comemos logo dois!
Não penso que a topografia do Grande Porto seja um problema para quem anda de bicicleta: acho que as infraestruturas estão mal optimizadas, feitas com o carro a ocupar o papel central. Algumas empresas de transporte não servem as populações da forma mais adequada e muitos delas continuam estupidamente de costas voltadas.
Como designer, a questão da mobilidade sustentável e a criação e manutenção de sistemas abertos/colaborativos é algo que me interessa e que ando a estudar (doutoramento), pois acredito que para além de serem um meio de criar cenários mais ecológicos, podem ter um profundo impacto para desenvolvimento social e económico sustentável.
O João deixou este link e mais este. O mapa está ali na barra da direita .





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