Na era das coisas timeoutianas
Numa das diárias passagens em revista da Internet urbano-ciclística, encontrei isto no Urban Velo:
Thunderdome is a new race series held on the Dorais Velodrome, which been abandoned for two decades. Tom Nardone is credited with rediscovering it and organizing the clean up, and now locals are going to put it to good use. As the website says, “The cyclists had it in the 70’s, the gangs had it in the 80’s, now it’s our turn.”
Claro que, ao ler “Dorais Velodrome, which been abandoned for two decades”, pensei logo no Museu Nacional Soares dos Reis (já lá vamos) e fui fazer uma pesquisa (sem queimar muitos neurónios, é certo).
Ora então, o Dorais Velodrome, em Detroit, foi construído em 1969, ano em que o Homem foi à Lua, e esteve até há pouco tempo abandonado, tendo vindo a ser palco de tudo e mais alguma coisa, menos corridas de bicicletas. Por exemplo nos anos 80 foi poiso para car gangs (Faísca McQueen crew), ou seja, coisa bem hard-core. O toque de finados foi dado nos anos 90, com a construção de um novo velódromo fora da cidade.
Em 2005 começou um lento processo de recuperação do recinto, tendo em vista a realização da corrida Thunderdrome, aberta a todo o tipo de bicicletas e até veículos motorizados de duas rodas. A pista está a renascer lentamente, num processo quase arqueológico, estando-se a desenterrar partes completamente cobertas com terra e erva, a repavimentar os troços mais críticos e a eliminar juntas e arestas no piso.
A primeira Thunderdrone será dentro de duas semanas, no dia 16 de Outubro e as classes em competição irão desde as bicicletas de corrida convencionais, as sweet-bikes; as btt, ou homegrown class, com parte do percurso em down-hill; as Moped, umas coisas dos anos 70 tipo Mobillete; as inevitáveis fixies ou you can sponsor this; terminando na classe scooters, ou seja, os secadores de cabelo até 50cc, que, nas palavras da organização, toda a gente odeia, mas todos querem conduzir.
Rewind… “pensei logo no Museu Nacional Soares dos Reis”. O que é que o muy respeitável Museu Nacional Soares dos Reis tem a ver com esta maluquice da decadente Detroit? Se o querido leitor é portuense e gosta minimamente de bicicletas, sabe o quê, ou seja, sabe que tem tudo a ver.
Pois… aqui está. Nas traseiras do MNSR, o edifício neoclássico em primeiro plano, existe um velódromo (quase) inteirinho, construído no Séc. XIX em plena febre ciclística, época em que, por exemplo, as corridas de resistência eram rainhas. Este velódromo não sente a roda de uma bicicleta no lombo desde os anos 30.
Uma pérola mesmo em pleno coração do quarteirão das artes (clop!), curiosamente assim chamado não por existir um Museu Nacional deste gabarito dedicado às belas artes, mas por se ter criado um cluster de galeristas, aos quais se juntaram as lojas trendy e cosmopolitas de que todos já ouvimos falar (ouch! linguagem timeoutiana, aqui as mãos tremeram no teclado).
Voltando ao velódromo, não vou gastar neurónios e pontas de dedo a fazer aquilo que alguém já fez melhor do que eu faria:
O Velódromo Maria Amélia
O Velódromo foi construído na então «Quinta do Paço», nas traseiras do Paço Real situado na rua do Triunfo (actual D. Manuel II), propriedade do rei D. Carlos, que, aquando da sua estadia na cidade, por ocasião da «Comemorações Henriquinas» de 1894 disponibilizou esse terreno ao Velo Clube do Porto para ali construir um velódromo.
Tinha entrada lateral, pela rua do Pombal (actual Adolfo Casais Monteiro) e a pista tinha 333,33 metros de perímetro, sendo o segundo velódromo do país. O primeiro foi inaugurado em 1893, na Quinta de Salgueiros, pela Secção Velocipedista do Clube de Caçadores do Porto. (…)
Inaugurado em 1895 ali se realizaram muitas corridas e demonstrações desportivas, incluindo a primeira corrida de motorizada realizada em Portugal.
Na primeira década do século o entusiasmo velocipedista afrouxou, perdendo popularidade para outros desportos, como o nascente futebol.
Neste momento o velódromo está desactivado, mas em muito bom estado de conservação, pelo menos bem melhor do que o seu homólogo da terra do Axel Foley, estando contudo amputados 10 dos seus 333 metros desde as obras de ampliação do Museu. No interior existem campos de ténis e o exterior serve de estacionamento.
Voltando ao tremelique timeoutiano (depois do rewind este já é o segundo ‘voltando’ – o post está a ficar apropriadamente circular), uma jóia destas não pode ser desperdiçada, muito menos estando no quarteirão mais cool, trendy e cosmopolita da Imbicta (tau!), onde decorrem regularmente as popularíssimas inaugurações simultâneas das galerias.
Pode não parecer a quem se deslocar até à capital das novidades urbanas num dia de inaugurações, dado os engarrafamentos gigantes, mas não há actualmente objecto mais na moda do que a bicicleta, e garanto, porque o conheço, que o Maria Amélia dava para fazer umas brincadeiras todas cheias de retro-coiso. Faltam 10 metros para este texto completar o círculo… por isso faça o favor de voltar para o início e voltar a ler, especialmente se tiver alguma coisa a ver com o Museu, com as galerias ou com a CMP.
História detalhada do Maria Amélia e respectiva fotogaleria neste óptimo trabalho do JPN.
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Excelente ideia, é propôr à gestão do Museu
No campo do Lima ainda há uma réstea do antigo velódromo.
Lembrei-me de algumas frases que li em Time Outs do Porto nos últimos tempos:
“O meu momento preferido na cidade é quando passo na VCI em direcção ao Freixo com o sol a pôr-se”
“Todos sabemos que devíamos andar a pé, mesmo que não seja conveniente, temos estas sugestões para demonstrar que não é sempre terrível”
“A Galeria de Paris é muito útil para estacionar e cortar caminho, menos ao fim-de-semana à noite, aí os carros atrapalham um bocado quando só queremos estar a beber um copo”
Mas há mais
Pf arranja-me um bilhete que eu quero ir à inauguração do Velodromo.