As semelhanças entre o Porto e Portland esgotam-se no nome

… e no relevo acidentado.

O skyline acidentado de Portland

Com 500.000 habitantes, Portland (Oregon) é, acreditando neste texto enviado por um amigo entusiasmado aqui com o estaminé, a cidade mais ciclável dos EUA e uma das 10 melhores do Mundo para pedalar (a 6ª, mais precisamente). Ao longo das páginas, que, paradoxalmente e certamente por via de algum mecanismo explicado pela psicanálise, começam todas os seus textos por ‘São Paulo’, verificamos que esta lista inclui também cidades como as inevitáveis Amesterdão e Copenhaga (1 e 2), Curitiba (4) e a nada plana Trondheim (10) , da qual já aqui falamos.

Se, como já disse, as semelhanças entre Portland e o Porto se resumem praticamente ao nome e à topografia, existem diferenças que são também evidentes: o clima, que por lá é tenebroso, incluindo muita chuva (como Londres) ou neve (como Trondheim) e a atitude, tanto das pessoas como do poder local, que decidiram apostar em força na mobilidade inteligente.

Percebe-se assim que Portland é uma cidade que tinha muito pouco para ser amiga do pedal dado o referido relevo, a localização num país em que o automóvel (ainda) é soberano, os invernos rigorosos e um desenho urbano orientado para a ligação rápida em automóvel dos subúrbios do American Dream ao centro da cidade. Mas, a  cidade e as suas pessoas decidiram fazer o impensável e fomentar o abandono do carro em detrimento de meios de transporte mais simpáticos, como a bicicleta e o eléctrico.

Hoje em dia, 9% dos seus habitantes utilizam a bicicleta como principal meio de transporte. Quando questionados sobre o declive, a resposta é quase unânime: Tudo bem, desde que se utilize uma bicicleta com mudanças, tal como em S. Francisco, outra cidade amiga das bicicletas, apesar de ser mais conhecida por isto.

Voltando ao artigo, resume-se aí o seguinte sobre Portland (em português do lado de lá que eu não vou corrigir):

(…) em Oregon, localiza-se aquela que é considerada  pela League of American Bicyclists a melhor cidade norte-americana para andar de bicicleta. Com mais de 480 km de ciclovias, Portland possui um programa comunitário oficial que disponibiliza bicicletas aos cidadãos de renda mais baixa. (…) .”

Este pequeno vídeo pode servir para ilustrar o cenário, onde não faltam a chuvinha e as subidas alimenta mitos:

Uma vez mais, insisto que, por muito que custe às pessoas e que estas continuem a procurar desculpas para não deixar o carro em casa, o caminho é cada vez mais o do abandono do automóvel e o do fim da mobilidade tal como a conhecemos.

Claro que o problema das cidades com relevo não se resolve só com boa vontade, com pernas tonificadas e pulmões de aço. No caso de Portland, tal como em Trondheim, existem alternativas para apoiar os pedestres e ciclistas a vencer as cotas e a passar da parte alta para a parte baixa da cidade. Se Trondheim optou pelo Trampe, já Portland aposta num teleférico, o Aerial Tram.

Por cá também temos esse tipo de ajuda para vencer o relevo, mas dá ideia que ninguém pensou numa articulação com as ciclovias das marginais, como no caso do Funicular dos Guindais, operado pela Metro e dentro do esquema Andante , o Elevador da Lada e muito brevemente o Teleférico de Gaia, que vai unir o cais ao tabuleiro superior da Ponte D. Luís e que até é parecido com o de Portland.

Outro aspecto em que levamos 10 a zero da nossa ‘quase’ homónima, é no campo da vontade política, ilustrado pelos mapas da cidade ciclável, com as zonas devidamente cadastradas considerando o nível de dificuldade, calculado com base nos declives, na pressão do tráfego e nas estruturas viárias existentes.

Portland Cycle Analysis

Enfim, uma boa história tem um final feliz, e como não o consigo vislumbrar, para já, pelo Porto, invoco para aqui o romance do amigo de um amigo, que conheceu a actual mulher, claro está, em Portland, num dia em ambos ficaram retidos no mesmo local, porque estavam de bicicleta e lá fora chovia a cântaros.

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24 thoughts on “As semelhanças entre o Porto e Portland esgotam-se no nome

  1. Lerner, o pioneiro de Curitiba, transformou uma cidade cheia de problemas a nível de mobilidade, num exemplo para o mundo, utilizando parcos recursos e implementando soluções revolucionárias e promovedoras do transporte colectivo em detrimento do transporte particular.

    A utilização da bicicleta foi uma consequência benigna de políticas que devolveram aos cidadãos espaços significativos, mas não como resultado da sua promoção directa. É Peñarosa que incorporando ideias de Lerner na cidade de Bogotá, as desenvolve e atribui papel relevante à bicicleta.

    Em Portland, quando Washington se preparava para lançar a primeira Guerra do Golfo, a esquerda local fundou a Bicycle Transportation Alliance, organização que tem tido um papel fundamental junto das autoridades tanto como grupo de pressão e como parceira.

    Um cocktail de políticos adeptos das bicicletas e ciclistas organizados -em 2008 a BTA representava cinco mil pessoas com um orçamento de $1,4 milhões- fez com que a cidade alterasse a cultura de tráfego orientada para o carro, mas não se pense que isso foi fácil e conseguido sem luta. Muita gente pensa que a penalização do carro afasta as empresas da cidade e desvaloriza o mercado imobiliário.

  2. O mais certo é o Alexandre Burmester chegar a presidente de Câmara e o Miguel ficar a pedalar na oposição… mas, eu vou fazer tudo o que tiver ao alcance do meu blog para o senhor Alexandre ter cada vez menos “amigos”!

    Agora a sério, o problema é que “nós” não nos organizamos e passamos o tempo a discutir com pessoas como o senhor Alexandre que é um digno representante do atraso de vida reaccionário lusitano!
    Quando tivermos capacidade organizativa, podemos ser um grupo de pressão junto dos decisores e aí talvez alguma coisa avance.

  3. Como sempre… é tudo um bocadinho utóptico…
    Gostava de saber como é que se pode transportar duas crianças numa bicicleta!
    Qual a diferença de tempo de chegada de Porto – Maia que neste momento faço em 20 min porta a porta, do que se o fizesse de bocicleta, sendo que pelo caminho tinha que passar num local para pegar no carro para depois ir buscar as referidas 2 crianças…
    Vivemos numa sociedade em que há mais preocupações com o ambiente e a importancia de substituir os carros por bicicletas do que em apoiar a estrutura familiar.
    Um dia destes não há ninguém para pedalar de tão velha que está a sociedade!
    De qualquer forma é uma boa reflexão.
    MA

    • Maria Ana,
      Não é justo comparar a bicicleta com o carro num estilo de vida totalmente car-oriented.
      É claro que o carro permite encurtar as distâncias, sobretudo quando à espaço para andar.

      O problema deste modelo de cidades é que está esgotado. Está saturado e não é por se fazer estradas mais largas e mais rápidas que ele se aguenta.

      Uma vida sem carro não é só deixar o carro, é ajustar todo um estilo de vida de forma a que as deslocações sejam menores, feitas a pé, de bicicleta, de transportes públicos e, claro de automóvel particular, porque não.

      Um pequeno exemplo. Os subúrbios. As pessoas querem casas “mais grandes”, mais novas e mais baratas. Depois compram melhores carros. As escolas “boas” são noutro lado qualquer e é preciso ir de carro para lá, o emprego está no centro da cidade, etc, etc.
      Se forem feitas as contas, por vezes dá para comprar uma casa não-tão-grande na cidade, ter menos um carro ou um carro menos caro, ter melhores escolas (até públicas) do outro lado da rua, gastar 25€ num passe social E ter mais tempo para viver a vida, os filhos, os amigos e a nossa própria vida (para além do trânsito e do trabalho).

    • Não vos pareceu que a Ana pediu ajuda.
      A Ana vem aqui ler estas coisas, mas acha que são utopias?
      Será que a Ana tem bicicleta?
      E a Ana quer experimentar?
      Será que alguma parte do caminho da Ana pode ser feito de bicicleta?
      A Ana pode dividir com alguém a entrega dos filhos à escola?
      O Miguel, que está aí em cima, não quer ajudar a Ana a experimentar?
      Ana, a sério que não é utopia. Sabe porquê? Porque está a acontecer um pouco por todo o lado.

  4. Eu ajudo a Maria Ana em tudo o que ela quiser :-)

    Vou fazer o plano de mobilidade, incluindo tempos de viagem e publicar num post. Combinado? Vai ser o próximo mapa na coluna da direita.

    A propósito, também graças à acção evangelizadora deste blogue, a partir do final do mês teremos mais uma adepta do commuting entre Porto (Freixo) e Maia com Metro e Bicicleta. É motivador.

  5. Olha que duas boas notícias.
    A primeira é que a Ana é uma moça de sorte.
    A segunda é ver-se cumprir o comprido designo deste, e doutros [:)], blogs.
    A pequena e singela comunidade “evangelisadore” faz verdadeiramente mais pela bicicleta que muitos Sá Fernandes desta terra (terra=mundo).

  6. Pingback: Pagar promessas « Um pé no Porto e outro no pedal

  7. Pingback: Mais um mito que se foi « Um pé no Porto e outro no pedal

  8. Pingback: Menos um mito. « Um pé no Porto e outro no pedal

  9. Pingback: Há coisas tão simples que até parecem estúpidas II « Um pé no Porto e outro no pedal

  10. Pingback: Portlandia « Um pé no Porto e outro no pedal

  11. Pingback: Boas notícias « Um pé no Porto e outro no pedal

  12. Pingback: Porto nas alturas « Um pé no Porto e outro no pedal

  13. Pingback: Ó não, mais um post colaborativo. « Um pé no Porto e outro no pedal

  14. Pingback: Motivar as Massas LVII « Um pé no Porto e outro no pedal

  15. Pingback: Pelo direito às alturas « Um pé no Porto e outro no pedal

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